segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Sobre escrever e ensinar roteiro

Escrever um roteiro é infinitamente mais difícil e complexo do que ensinar a escrever um.

Evidentemente o ofício de escrever para as telas e a pedagogia da escritura audiovisual são áreas distintas, cuja proficiência se atinge de maneiras bastante diferentes. Mas tenho a sensação de que em Roteiro, mais do que em outras áreas, há pessoas reputadas por seus conhecimentos em roteiro sem possuir uma trajetória prática que justifique.

Quando estive na Faculdade Nacional de Direito, os professores mais destacados eram advogados proeminentes, com vasta literatura publicada e longa trajetória jurídica. O mesmo vale para as faculdades de Medicina, onde raros são os professores que não exercem a Medicina, e mais raros ainda os que não são médicos.

Mas no mundo do roteiro parece perfeitamente aceitável que seja um guru do roteiro alguém que mal tenha enfrentado a página em branco e os sucessivos tratamentos em busca de um roteiro de qualidade, ou que sequer possua um bom roteiro original para mostrar.

Escrever um roteiro é uma tarefa complexa e que depende de uma série de habilidades e conhecimentos, muitos dos quais podem ser aprendidos em escolas, livros e cursos de roteiro. Mas há uma faceta exclusiva dos escritores: colocar as ideias no papel, linha após linha, cena após cena.
Depois, submeter seu roteiro (e expor suas entranhas) ao crivo de colegas, produtores, estranhos. Colher as impressões dos outros com a humildade de quem sabe que as críticas não são a você, e sim à sua obra - e reescrever despreguiçosamente, repetindo os últimos processos tantas vezes quanto forem necessárias. Costumo dizer a meus alunos que essa é a grande característica do roteirista profissional: a capacidade de reescrever seu roteiro, aperfeiçoando-o paulatinamente a cada tratamento.

Uns roteiros levarão quatro ou cinco tratamentos, outros dez ou doze. Poucos levarão mais do que isso, pouquíssimos levarão menos, e certamente nenhum roteiro fica bom no primeiro tratamento.
Ernest Hemingway (alegadamente) disse: qualquer primeiro tratamento é uma merda.

O próprio Hemingway (como Dashiel Hammet, Scott Fitzgerald e alguns outros grandes escritores) não foi lá muito bem como roteirista, apesar de seu gênio e de sua exitosa carreira de escritor. O roteiro possui especificidades que dizem respeito à escritura audiovisual - por um lado, é Literatura, mas por outros tantos lados não é.

A jornada de escrever um roteiro é individual - a minha experiência me ensina que os conselhos mais válidos vêm inevitavelmente de quem já percorreu esse caminho várias vezes.