quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A Linguagem é como a pele (Barthes)

Hoje Roland Barthes​ faria 100 anos.

"Linguagem é como a pele: eu esfrego minha linguagem na do outro. É como se eu tivesse palavras em vez de dedos, ou dedos nas pontas das minhas palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção deriva de um contato duplo: por um lado, toda uma atividade discursiva que foca, discreta e indiretamente, em um significado único, que é "eu te desejo", e o liberta, nutre, ramifica até o ponto de explosão (a linguagem experimenta o orgasmo ao tocar-se); por outro lado, eu envolvo o outro em minhas palavras, acarinho, roço, promovo esse contato, eu me arrasto para fazer o comentário ao qual eu submeto a relação."

Barthes, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Ed. Francisco Alves, 1989, p. 64.



Roland Barthes (1915-1980)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Quais os principais erros cometidos em Roteiro?

É um consenso entre leitores de roteiros do mundo inteiro que a fração de obras que se recomendam à produção varia de 1% a 3%. Em outras palavras, isso equivale a dizer que 97 em cada 100 roteiros escritos jamais serão transformados em filmes - no contexto da indústria cinematográfica.

Outro dia me deparei com um infográfico que fazia uma análise de um corpus de 300 roteiros recebidos por uma agência de talentos em Los Angeles - dos quais apenas 8 foram recomendados à produção - e da qual é possível extrair algumas conclusões interessantes.

As mais interessantes para mim são onde mais erram os roteiristas. Quando eu falo "erram" não quero dizer que existe um jeito certo e um jeito errado de contar uma história. Entretanto, existe uma maneira que se tornou hegemônica no contexto da indústria cultural - a que chamamos Narrativa Representativa Industrial (a expressão é de Jacques Aumont) - e que, embora comporte inovações, é pouco propícia a aceitar alterações radicais em seu formato e proposta.

Segundo esse estudo, o erro mais comum foi a demora para introduzir a história. Isso está ligado a uma questão central com a qual o roteirista frequentemente se depara: sobre o que é o meu filme? Não ter com clareza a resposta para essa pergunta é o fator de risco número um para tardar a entrar na história.

O segundo erro mais comum encontrado nos roteiros foi a falta de conflito consistente nas cenas - outra coisa que não me canso de repetir em minhas aulas. Se não há desejo do personagem e oposição a ele, não há conflito. E se não há conflito, não há história. Ainda assim, a quantidade de cenas que eu vejo por aí sem qualquer conflito - cenas planas e meramente expositivas... Além

O terceiro erro é, em si, uma lição para roteiristas: roteiros realizados exatamente de acordo com os manuais, extremamente técnicos, embora frios e desprovidos de significação. Os manuais de roteiro operam principalmente na esfera da Morfologia e da Sintaxe, ou seja, da natureza dos elementos estruturantes (como personagens, por exemplo) e da relação entre eles. No entanto, essas esferas são meramente teóricas e seu domínio não basta para a produção de um roteiro de qualidade.

Regras como balanço emocional, viradas a cada dez páginas, lista de funções dramáticas, Pirâmide de Freytag, etc., só servem de alguma coisa quando a serviço de uma história potente. E enquadrar a história em uma estrutura pré-definida não é garantia de funcionamento orgânico da narrativa.

Que tal aprender com os erros dos outros?

(Clique aqui para ver maior.)


terça-feira, 26 de maio de 2015

Modelo de Estrutura Narrativa: o Blake Snyder Beat Sheet

Beat Sheet não tem uma tradução exata: alguns chamam de escaleta, mas no Brasil usamos esse nome para outro documento, uma espécie de pré-roteiro, já com as cenas desenhadas mas ainda sem diálogos.

Existem vários Beat Sheets por aí, o mais famoso talvez seja o Memorando de Christopher Vogler aos roteiristas da Disney. Mas o melhor que eu encontrei ao longo dos últimos anos foi escrito por um camarada chamado Blake Snyder, autor do livro "Save the Cat", que não foi publicado no Brasil.

Basicamente ele consiste na mesmíssima coisa que Vogler escreveu baseado na obra de Joseph Campbell, que, se formos traçar uma genealogia dessa ideia certamente chegaremos nos formalistas russos, Freytag e sabe-se lá mais quem. Não se trata portanto de buscar qualquer originalidade no pensamento de Snyder, mas sim de uma ferramenta extremamente útil para roteiristas, pela maneira como estão dispostos os movimentos clássicos do monomito.

Eis o Blake Snyder Beat Sheet, também conhecido como BS2, em tradução (e ligeira adaptação) minha.

Imagem de Abertura – Uma imagem que represente metaforicamente o tom e o conflito da história. Um relance do problema do protagonista, antes que a aventura tenha início.

Setup – Uma expansão do momento "antes". Apresentação do mundo do protagonista como ele é, e o que está faltando em sua vida.

Declaração do Tema (acontece durante o Setup) Sobre o que é a história; a mensagem; a verdade. Normalmente é dito para o protagonista ou em sua presença, mas ele não compreende a verdade... não até que tenha experiência pessoal e o contexto para que isso seja possível.

Catalisador – O momento em que a vida como ela é muda. É o telegrama, o ato de flagrar o ser amado em plena traição, ou de permitir que um monstro suba a bordo da nave, de encontrar o grande amor de sua vida, etc. O mundo do "antes" não é mais possível, a mudança está em andamento.

Debate – Mas a mudança é assustadora, e, por um momento, ou por um breve número de momentos, o protagonista tem dúvidas sobre a jornada a seguir. Posso encarar esse desafio? Tenho o que precisa? Devo ou não devo ir? É a última chance para o herói amarelar e pular fora.

Entrada no Ato 2 (Escolha) – O protagonista toma uma decisão e a jornada se inicia. Deixamos o mundo da "Tese" e entramos no mundo invertido (antítese) do Ato 2.

Trama B – Aqui é quando acontece uma discussão sobre o Tema - uma pílula da verdade. Normalmente, essa discussão é entre o protagonista o o par romântico. Assim, a Trama B frequentemente é chamada de “love story”.

A Promessa da Premissa – Essa é a parte divertida da história. É quando a relação entre Craig Thompson e Raina floresce, quando Indiana Jones tenta derrotar os nazistas na busca pela Arca Perdida, quando o detetive acha a maior parte das pistas e desvia da maior parte das balas. É quando o protagonista explora o mundo novo e os espectadores são recompensados com o pagamento da promessa contida na premissa.

Midpoint – Dependendo da história, esse é o momento em que tudo está "ótimo" ou "terrível". O protagonista ou tem tudo o que ele acha que precisa ("ótimo") ou não tem nada do que ele acha que precisa ("terrível"). Mas nem tudo o que achamos que precisamos é, no final das contas, o que precisamos de verdade.

O Inimigo se Aproxima – Dúvida, ciúme, medo, inimigos físicos ou emocionais se reúnem para derrotar o protagonista em seu objetivo, e a situação (ótimo ou terrível) se desintegra.

Tudo está Perdido – O momento oposto ao Midpoint: se tudo estava "ótimo", agora estará "terrível" e, menos frequentemente, vice-versa. Esse é o momento em que o personagem descobre que ele perdeu tudo o que conseguiu, ou que tudo o que ele tem não possui valor algum. O objetivo inicial agora parece mais impossível do que nunca. E aqui, algo - ou alguém - morre. Pode ser físico ou emocional, mas a morte de algo velho abre caminho para que algo novo nasça.

Fundo do Poço – O protagonista atinge o fundo do poço e chafurda no lodo da desesperança. Esse é o momento "Por que me abandonaste, ó pai?" O luto pelo que morreu - o sonho, o objetivo, o mentor, o amor da sua ida, etc. Mas você precisa cair completamente até poder se reerguer e tentar novamente.

Entrada no Ato 3 (Escolha) – Graças a uma nova ideia, nova inspiração, ou conselho temático de última hora vindo da Trama B (frequentemente o romance), o protagonista decide tentar novamente.

Finale – Dessa vez, o protagonista incorporou o Tema - a pílula da verdade, que agora faz sentido para ele - em sua batalha pelo objetivo, porque agora ele tem a experiência da Trama A e o contexto da Trama B. O Ato 3 é sobre síntese.

Imagem Final – Uma imagem oposta à imagem de abertura, provando visualmente que uma mudança ocorreu no protagonista.

FIM.

Blake Snyder (1957-2009)
No site do Blake Snyder, você pode encontrar Beat Sheets de diversos filmes segundo esse paradigma.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

70 anos da Liberação de Auschwitz

Muito de nós morreu em Auschwitz: morreu a poesia, como disse Adorno; morreu Deus, como disse Wiesel. Morreu Primo Levi, quarenta anos depois. Morreram um milhão e meio de pessoas, em sua maior parte judeus.

Morreu a ideia de que o genocídio é obra dos monstros, algo importante de não se esquecer em tempos de Boko Haran e Estado Islâmico.

Hoje faz 70 anos que Auschwitz foi liberado.

Estive lá há 5 e acho que nunca mais fui o mesmo.