terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre artistas profissionais

"Tenho como minha obrigação profissional estar acima do público que me freqüenta. Não posso, como profissional, oferecer ao público que me freqüenta uma criação que ele se julgue também capaz de realizar. Seria o mesmo que o fabricante de cadeiras me oferecer uma cadeira feita com três ripas malpregadas, mal-alinhadas e mal-envernizadas e me cobrasse por isso um preço profissional. No campo viril do artesanato isso é impossível, pelo menos a esse ponto absurdo, e pelo menos em larga escala. Uma cadeira comprada será sempre muito melhor do que a que conseguimos fazer em casa com nossas parcas habilidades e ferramentas. E, no entanto, sem sombra de dignidade profissional, artistas, jornalistas e, sobretudo, ‘produtores’ de televisão (falo muito destes e não canso de me referir a eles, pois esses homens têm na mão um meio de divulgação da mais extrema potência) não têm vergonha de apresentar ao público espetáculos degradantes como caráter, humilhantes como representação geral do nível artístico do país em que vivemos e perigosíssimos no sentido de que uma massa de estupidez muito grande acaba embotando mesmo o potencial de inteligência mais privilegiado."

Millôr Fernandes, 1962, Introdução a "Um Elefante no Caos".