segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Em Roteiro, o que é um beat?

Esses dias recebi do mercado um feedback - que entre roteiristas chamamos de "notas" - que, entre diversos apontamentos, havia um que me chamou a atenção:

"Faltam beats nos diálogos e cenas."

Perguntei para alguns colegas se eles compreendiam a essência da nota, e todos eles responderam com o mesmo assombro que me acometeu. Poucas expressões em Roteiro são tão confusas quanto beat, de modo que resolvi investigar um pouco melhor essa questão, também em função do desenvolvimento da minha dissertação de mestrado, sobre Processo Criativo do Roteirista, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ.

O termo beat se popularizou nos estudos de Roteiro possivelmente a partir do influente livro "Story", de Robert McKee, em que diz ele:
"Beat é uma mudança de comportamento em ação/reação. Beat por beat, essas mudanças de comportamento mudam a forma da cena." (MCKEE, Robet. "Story", p. 37)
Como bem sabemos, o grande mérito do McKee é colecionar conceitos narratológicos oriundos das mais diferentes fontes (principalmente Aristóteles, no entanto) e ter apresentado de maneira concisa e coerente, cheia de exemplos dos filmes clássicos. Um exemplo disso é o tal "plot point", que chamamos aqui no Brasil popularmente de "virada". O que McKee chama de ponto de virada (plot point), Aristóteles já chamava há vinte séculos de Peripécia (peripeteia).

O que Aristóteles concluiu sobre a poesia e o drama de sua época continua valendo. Com a Poética, a Narratologia começa a se desenvolver, e continua se desenvolvendo com os trabalhos de muitos outros narradores, pesquisadores e filósofos.

O beat, por exemplo, conceito que ele popularizou, nada mais é do que um Narrema. Assim como o Fonema é a unidade básica da Fonologia, o Morfema, da Morfologia, o Narrema é o fragmento mínimo indivisível da Narratologia - o estudo das narrativas.

Embora esse termo científico não tenha mais do que 40 anos, a partir dos trabalhos de Eugene Dorfman em meados dos anos 1960, ele se consagrou nos estudos estruturalistas, e foi apresentado à Pedagogia do Roteiro de maneira simplificada, principalmente por intermédio de Mr. McKee.

Como proposto pelo linguista canadense Henri Wittmann nos anos 1970, o Narrema é a unidade básica de estrutura narrativa. Trata-se de um acontecimento dramático que pontua o desenrolar dos acontecimentos na narrativa: a fração irredutível de uma cena em que "acontece alguma coisa", o menor pedaço capaz de expressar significado narrativo.

Apesar de ter desembarcado recentemente no mercado audiovisual brasileiro, o conceito de Beat não tem nada de novo. Pelo contrário, é um conceito oriundo de outros campos da ciência que, por ora, os estudos em Roteiro teimam em ignorar.


"A Velha Cozinheira" (1618), de Diego Velasquez

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Sobre formatos de roteiro

Por incrível que pareça, não existe um padrão internacional de roteiros. Cada um escreve como bem quer, como reconhece Greg Beal, autor do guia de formatação de roteiros da Academia (aquela do Oscar). Apesar disso, existe um formato que se consagrou na indústria cinematográfica norteamericana e que foi reproduzido em cinemas de diversos países.

Esse formato utiliza a tipografia e a diagramação da máquina de escrever, em que os primeiros roteiros foram compostos - durante meio século - para circulação. A maneira de se contarem as páginas, de se numerarem as cenas - tudo vêm da máquina de escrever, disposto de maneira que, de modo geral, uma página de texto corresponda a um minuto de imagem.

Em 1991, o modelo adotado pela indústria passou a ser o gerado pelo Final Draft - não só o cinema mas também o teatro mainstream dos Estados Unidos passaram a utilizar o Final Draft porque ele reproduzia com precisão o modelo consagrado da máquina de escrever, aliado aos benefícios da escrita inteligente, e ainda por cima gerando arquivos compatíveis com a produção informatizada.

A televisão, tal qual o rádio, desenvolveu sua formatação própria para roteiros. A própria TV Globo usou durante muitos anos (e penso que ainda use) roteiros gerados no Word a partir de uma Macro programada para cada novela. Entretanto, o segmento da produção televisiva que vem buscando aproximar a linguagem de seus produtos da cinematográfica, tem utilizado exclusivamente o formato do Final Draft. O roteiro de Breaking Bad é um exemplo disso.

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O que é Master Scenes?

Por algum motivo que desconheço, popularizou-se no Brasil o nome "Master Scenes" para indicar o formato clássico de roteiro, que reproduz a estética da máquina de escrever e que faz uma página corresponder a um minuto. Nunca encontrei referências a esse nome na literatura especializada americana, nunca vi um roteirista americano se referir assim à formatação de roteiro, etc. A título de curiosidade, lá eles chamam de "Standard Script Format", mas não dão muita bola para isso.

Desconfio que o culpado disso seja o Hugo Moss e seu clássico livreto de formatação de roteiros. Mas isso é apenas uma especulação minha...


Eu tenho um roteiro em Word e quero passar para FDX, é possível? Como reformatar um roteiro?

Sim, é possível, mas depende de como está escrito. Se você o escreveu no Word, utilizando uma Macro, ou formatou manualmente em "Master Scenes", sua melhor opção é salvar um PDF e transformá-lo em FDX seguindo os passos da próxima pergunta. Mas se seu roteiro está escrito em um formato mais, digamos, livre, eu recomendo o uso da ferramenta "Reformatar" do Final Draft.

Funciona assim: você abre um documento novo, cola o seu texto e clica em "Reformatar". A partir daí, o Final Draft vai, bloco por bloco de texto, perguntando a que categoria pertence: personagem, cabeçalho, diálogo, ação ou transição. Para cada um, ele designa um número, cuja tecla basta você pressionar antes de ele seguir para o próximo bloco de texto. Não é muito rápido (toma algumas horas para um roteiro de 90 páginas) mas é bem mais rápido do que qualquer alternativa manual. Também pode requerer alguma revisão adicional, dependendo do quão livre tenha sido a escrita do roteiro.


Como converter roteiros em PDF para FDX?

Essa é fácil, mas me levou um bom tempo para descobrir. Você tem um roteiro formatado corretamente em PDF e precisa fazer alterações, a melhor maneira de fazer com o que o Final Draft leia o seu roteiro como um arquivo inteligente é passá-lo pelo Writer Duet. Como eu já disse em outro artigo, o Writer Duet é uma plataforma online colaborativa e gratuita para edição de roteiros. Depois de muitos testes, descobri que o Writer Duet importa arquivos em PDF e seu algoritmo entende o que é personagem, o que é diálogo, o que é ação. Depois é só pedir para baixar em formato FDX e... voilá!


Dá para converter CELTX para FDX?

Utiizando a mesma ferramenta, também é perfeitamente possível importar os arquivos do Celtx no Writer Duet e fazer o download como FDX. Notas, comentários, página título e outras informações que não o texto central do roteiro eventualmente se perderão, mas o principal é importado com eficiência e correção. Quem, como eu, tem um grande arquivo de curtas e primeiros escritos em Celtx, vale a pena passar por esse processo.



"A Conversão de Saulo", (1542-1545), de Michelangelo


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Qual programa de roteiro devo usar?

Sempre ouço essa pergunta, tanto de pessoas começando na arte do roteiro, quanto de roteiristas mais experientes fazendo a transição tecnológica. Com a introdução do modelo americano de séries no Brasil, a adequação às normas internacionais de roteiro se torna cada vez mais importante.

Bem, e qual é a resposta? Simples: se você é um profissional, você precisa usar o Final Draft, de preferência a versão mais nova.

Não recebo um real deles para fazer esse tipo de propaganda. Pelo contrário, para mim não faz a menor diferença se você vai pagar US$249 na Loja Oficial ou se você vai piratear a mesma versão a custo zero, Mas a atuação profissional de um roteirista exige uma ferramenta desse porte, não só pelas facilidades que ele oferece na escritura do roteiro, mas também porque os programas que serão usados pela produção e pela direção, como o MovieMagic - usado para fazer de cronogramas a orçamentos, além de escalas de gravação - dialogam melhor com os roteiros produzidos no Final Draft.

Basicamente, o FDX (Final Draft XML, o arquivo que o Final Draft gera) é uma planilha em que cada linha possui uma informação agregada: se é cabeçalho, ação, diálogo, nome de personagem, transição, etc. Quando você escreve seu roteiro em um editor de texto convencional, essa informação agregada não é gerada e atrapalha todo mundo adiante na cadeia produtiva que precisa delas.

Mas não existem alternativas? Sim, existem. O Celtx é a mais conhecida delas, funcionando sobre a plataforma aberta do Mozilla Firefox. Já usei muito, é uma excelente porta de entrada para o mundo dos softwares de roteiro... mas na boa? Não chega perto do Final Draft em funcionalidades úteis para o roteirista. "Mas eu prefiro o Celtx" é uma coisa que pega muito mal dizer no "mercadão": mostra que ou você não conhece ou não domina o Final Draft.

Outra alternativa é o Writer Duet, uma plataforma online e gratuita (cujo serviço Pro custa U$29,90 - uma única vez na vida, válido para todas as versões futuras) que além de servir para converter variados tipos de arquivos de roteiro (vou escrever um outro artigo sobre isso em breve), possui diversas funcionalidades (especialmente relacionadas à mobilidade) interessantes, mas ainda está distante do conforto que o Final Draft proporciona à escrita.

Resumo da ópera: a imagem abaixo responde à pergunta que dá título a esse artigo.






terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sobre artistas profissionais

"Tenho como minha obrigação profissional estar acima do público que me freqüenta. Não posso, como profissional, oferecer ao público que me freqüenta uma criação que ele se julgue também capaz de realizar. Seria o mesmo que o fabricante de cadeiras me oferecer uma cadeira feita com três ripas malpregadas, mal-alinhadas e mal-envernizadas e me cobrasse por isso um preço profissional. No campo viril do artesanato isso é impossível, pelo menos a esse ponto absurdo, e pelo menos em larga escala. Uma cadeira comprada será sempre muito melhor do que a que conseguimos fazer em casa com nossas parcas habilidades e ferramentas. E, no entanto, sem sombra de dignidade profissional, artistas, jornalistas e, sobretudo, ‘produtores’ de televisão (falo muito destes e não canso de me referir a eles, pois esses homens têm na mão um meio de divulgação da mais extrema potência) não têm vergonha de apresentar ao público espetáculos degradantes como caráter, humilhantes como representação geral do nível artístico do país em que vivemos e perigosíssimos no sentido de que uma massa de estupidez muito grande acaba embotando mesmo o potencial de inteligência mais privilegiado."

Millôr Fernandes, 1962, Introdução a "Um Elefante no Caos".


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Audiovisual P2

A segunda avaliação do semestre 1-2014 consistirá em um texto, de aproximadamente 1 lauda, em que deve ser apresentada uma análise de um videoclipe à sua escolha, considerando-se o texto, que pode ser baixado clicando aqui, e o conteúdo apresentado em sala ao longo do semestre.

Ou seja, basicamente a mesma coisa pedida na P1, mas agora com mais complexidade, mais referências, maior domínio da linguagem audiovisual e maior identificação do autor do texto (você) com o vídeo escolhido. É sempre melhor falar do que gostamos.

As provas devem ser impressas e entregues na aula de segunda-feira, 12 de maio.

Lembro a todos que, além de ser conveniente ler essa questão até o final, é interessante falar dos componentes da linguagem audiovisual: para que a mensagem seja transmitida, diferentes linguagens transmitem diferentes mensagens, que somadas compõem a mensagem do filme. O desafio é identificar e analisar essas linguagens separadamente: locução, trilha sonora, efeitos de áudio, fotografia, montagem, efeitos especiais, roteiro, direção, e por aí vai.

A prova será avaliada de 0 a 10, com grau de rigor superior ao da P1. Quem se sentir estimulado pode fazer um trabalho opcional, avaliado de 0 a 2, que consiste em uma análise do filme "A Noite Americana", de François Truffaut, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1973. O trabalho deve ser entregue na mesma data que a prova.


Cartaz original do filme "A Noite Americana", de \François Truffaut (1973)

terça-feira, 18 de março de 2014

Paixão FC

O Paixão Futebol Clube, série que escrevo com Marton Olympio, Guto Graça e Celso Oliveira, finalmente tem um vídeo promocional - o famoso promo - no caso, dirigido pelo Marton Olympio. 

Sou suspeito para falar, mas o elenco é espetacular, liderado por Rodrigo Rangel, Charles Fricks e Rocco Pitanga, além de participações pra lá de especiais - além do que representa ter Clelia Bessa à frente da produção.

Em ano de Copa do Mundo, estamos propondo discutir, por intermédio da antiga arte de contar histórias, os pequenos dramas individuais que permeiam o rico universo de uma das maiores paixões populares no Brasil: o futebol.


segunda-feira, 17 de março de 2014

Audiovisual P1

O vídeo abaixo, chamado "We are the future" ("Nós somos o futuro") foi concebido pela PHD Worldwide, uma empresa subsidiária do Omnicom Group, o maior conglomerado de propaganda e marketing do mundo.

Partindo da pergunta "Como as marcas e empresas vão se relacionar com seus consumidores em um futuro próximo?", o vídeo apresenta uma série de questionamentos do Grupo sobre a transformação que nosso mundo vive.


Baseado nisso, a prova consiste em elaborar um texto analisando o vídeo em questão. Fale do conteúdo do vídeo - do que ele transmite para você, e a partir daí, que elementos foram utilizados para construir essa mensagem que você recebeu. Fale da janela a que ele se destina. Pense na fotografia, na edição, na trilha sonora.

Dizem que o escritor argentino Jorge Luis Borges dizia a seus alunos que escrever é fácil - basta começar com letra maiúscula, terminar com ponto final e, no meio, colocar o que você pensa sobre determinado assunto.

Mãos à obra!

Instruções:

1- O texto deve ter em torno de uma página, com fonte 11 e espaçamento 1,5.
2- O texto deve ser salvo em DOCX, DOC ou RTF.
3- O texto deve ser enviado para o email escrito no quadro com o assunto [UCAM Audiovisual P1]
4- Seja conciso e claro nas suas ideias.