sábado, 13 de julho de 2013

Deuses e lâmpadas

De todas as tecnologias desenvolvidas pela humanidade, penso que nenhuma tenha transformado tanto a aparência externa do nosso planeta como a luz elétrica. Tesla, Edison, a Westinghouse e, sempre ele, o Governo Americano.

Com exceção dos vazios demográficos, onde praticamente não há gente, e de regiões paupérrimas, onde pode haver gente, mas não há consumidores (então pros donos do mundo é como se não houvesse gente), não há canto desse planeta que não seja iluminado por lâmpadas elétricas. Isso sem contar com a iluminação pública de nossas cidades, imensos formigueiros elétricos com milhões de habitantes, cada um contribuindo também com suas pequenas luzinhas.

Com a iluminação da atmosfera - que os astrônomos chamam de "poluição astronômica" - crescendo dia após dia, ano após ano, século vinte adentro, fomos perdendo a capacidade de ver as estrelas.  A coleção "Cidades Escurecidas", do fotógrafo francês Thierry Cohen, utiliza uma técnica especial de sobreposição para dar conta da quantidade de estrelas que há sobre nós e, graças às luzes artificias, nos tornamos incapazes de ver.

Imagine um cidadão comum, de qualquer um dos séculos que nos antecederam, vivendo em cidades que escurecem junto com o planeta. Esse cidadão sai de casa, e do descampado que há nos fundos, olha para cima. Vê um céu que revela a incontável dimensão da sua pequenez como humano ridículo e limitado. Daí não me admira esse caboclo crer. No manto da noite estrelada, deuses caminham, sarças ardem sem queimar, anjos batalham... seres míticos percorrem a noite: Escorpião, Touro, Nix.

(Lembram-me madrugadas geladas na rampa de paraglider, alto da Serra de São Domingos: fogueira, violão, garrafão de vinho, amigos, amores - e um céu inacreditavelmente cheio de estrelas, mas tão cheio que dá a impressão de ser uma abóboda mesmo.)

Nix, a deusa grega da noite, não por acaso é patrona de bruxas e feiticeiras, território da crença e da reverência. Território do céu que se revela, e que tal qual conhecimentos ancestrais, vem sendo apagado de nossas vistas. Quanto mais acendemos nossas cidades e iluminamos a atmosfera, apagamos o céu. E gastamos energia para isso, muita energia.

Fico pensando se a implantação desse modelo terá sido por acaso.


(Rio de Janeiro 22° 56’ 42’’ S, de Thierry Cohen, Danzinger Gallery)