sexta-feira, 7 de junho de 2013

Faça um filme sobre uma carta

Frequentemente me vejo em reuniões com clientes que não sabem ao certo o que querem de seus vídeos. E parte do meu trabalho de roteirista é convencê-lo de tudo o que não precisa estar na tela. Uma ideia que costuma favorecer esse entendimento eu ouvi na faculdade, de um professor de História do Cinema Brasileiro (obrigado, Moura!).

Alberto Cavalcanti, que é um dos patriarcas do cinema brasileiro, foi um documentarista pioneiro no começo do século passado. Uma de suas máximas, que tantos anos depois me ajuda com indecisos diretores de marketing é a primeira de uma lista de catorze - que sugerem um jeito honesto de filmar... ou de viver.

  1. Não generalize; faça um filme sobre uma carta, não sobre os Correios.
  2. Não fuja dos três elementos: o social, o poético, o técnico.
  3. Não negligencie o argumento; quando estiver pronto, o filme está feito.
  4. Não confie no comentário: irrita; comentário engraçado irrita mais; são imagens e sons que contam a história.
  5. Não se esqueça  de que cada  tomada é parte de um todo; a mais bela sequência fora do lugar torna-se banal.
  6. Não invente ângulos gratuitos de câmera; eles destroem a emoção.
  7. Não abuse da montagem rápida; pode ser tão monótona quanto a arrastada.
  8. Não abuse da música; ou a platéia deixa de ouvi-la.
  9. Não abuse de efeitos sonoros; som complementar é a melhor banda.
  10. Não abuse de efeitos óticos; fusões e fades são só a pontuação do filme.
  11. Não abuse dos close-ups; guarde-os para o climax.
  12. Não tema as relações; seres humanos são belos como outros animais.
  13. Não seja confuso; conte a história clara e simplesmente.
  14. Não perca a oportunidade de experimentar; sem experiência o documentário não existe.
(Lista de Alberto Cavalcanti escrita em 1948, mais atual do que nunca.)



Alberto Cavalcanti