sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Como escrever, por David Ogilvy

Gosto muito de listas compiladas por escritores que admiro sobre o ofício de escrever, de contar histórias. Eu mesmo mantenho um registro constante da minha lista, com princípios pinçados daqui e dali, da experiência de escrever, de ler e de assistir. Um dia organizo e publico aqui a lista. Recentemente reencontrei na internet a lista de David Ogilvy.

David Ogilvy foi um publicitário e teórico da publicidade americana, fundador de uma das maiores agências de propaganda do mundo e certamente uma das inspirações de Don Draper. Em 7 de setembro de 1982, David enviou um memorando a todos os funcionários da agência chamado "Como Escrever".

"O quanto melhor você escrever, o mais alto você chega na Ogilvy & Mather. Pessoas que pensam bem, escrevem bem.
Pessoas de pensamento confuso escrevem memorandos confusos, cartas confusas e discursos confusos.
Escrever bem não é um talento natural. Você precisa aprender a escrever bem. Aqui há 10 dicas:
 
1. Leia o livro de Roman-Raphaelson sobre escrita, Leia-o três vezes.
2. Escreva como você fala. Com naturalidade.
3. Use palavras curtas, frases curtas e parágrafos curtos.
4. Nunca use palavras de jargão, como reconceituar, demassificar, atitudinalmente, judicialmente. São marca registrada de um idiota pretensioso.
5. Nunca escreva mais de duas páginas sobre nenhum assunto.
6. Cheque suas citações.
7. Nunca envie uma carta ou memorando no dia em que você o escreveu. Leia-o em voz alta na manhã seguinte -- e então edite-o.
8. Se algo é importante, peça a um colega para melhorá-lo.
9. Antes de você enviar sua carta ou seu memorando, certifique-se de que está claro o que você deseja que o destinatário faça.
10. Se você quiser AÇÃO, não escreva. Vá e fale diretamente ao sujeito o que você deseja.
 
David"

"A 100 km/h, o barulho mais alto dentro desse Rolls-Royce novo
vem do relógio elétrico do painel." Anúncio lendário de David Ogilvy.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Quatro aforismos sobre o mesmo tema

"A moldura é uma fronteira que sela hermeticamente o objeto, para que tudo o que você experimenta, tudo o que importa, esteja dentro daquela fronteira" - Joseph Campbell.


A partir do momento em que se tornou impossível, tornou-se também irresistível

**

Do alto do que não sou, vislumbrei o que não fomos. 

**

Santos desconfiados: uma herança de nosso tempo.

**

Ouvi esses dias, de um escritor amigo meu, que jamais rabsicou uma linha sequer se tivesse bebido uma gota de álcool. Ele não sabe a inveja que eu tenho dele. 


Vênus de Urbino (1538), de Tiziano.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Vocês acordando para correr e eu indo dormir

"Nós, que dormimos tarde, que fumamos maconha, que bebemos muito, que trocamos nossas mulheres e não conseguimos cumprir nossos horários... nós somos loucos.

Vocês, que respeitam a rotina, que obedecem às leis, que mantêm os casamentos, que competem pelos cargos, que protegem os bens... vocês são nojentos."

(citado de memória de Domingos Oliveira citando - também de memória - Sartre. Ou alguma coisa assim.)

(Jean Paul Sartre)

sábado, 13 de julho de 2013

Deuses e lâmpadas

De todas as tecnologias desenvolvidas pela humanidade, penso que nenhuma tenha transformado tanto a aparência externa do nosso planeta como a luz elétrica. Tesla, Edison, a Westinghouse e, sempre ele, o Governo Americano.

Com exceção dos vazios demográficos, onde praticamente não há gente, e de regiões paupérrimas, onde pode haver gente, mas não há consumidores (então pros donos do mundo é como se não houvesse gente), não há canto desse planeta que não seja iluminado por lâmpadas elétricas. Isso sem contar com a iluminação pública de nossas cidades, imensos formigueiros elétricos com milhões de habitantes, cada um contribuindo também com suas pequenas luzinhas.

Com a iluminação da atmosfera - que os astrônomos chamam de "poluição astronômica" - crescendo dia após dia, ano após ano, século vinte adentro, fomos perdendo a capacidade de ver as estrelas.  A coleção "Cidades Escurecidas", do fotógrafo francês Thierry Cohen, utiliza uma técnica especial de sobreposição para dar conta da quantidade de estrelas que há sobre nós e, graças às luzes artificias, nos tornamos incapazes de ver.

Imagine um cidadão comum, de qualquer um dos séculos que nos antecederam, vivendo em cidades que escurecem junto com o planeta. Esse cidadão sai de casa, e do descampado que há nos fundos, olha para cima. Vê um céu que revela a incontável dimensão da sua pequenez como humano ridículo e limitado. Daí não me admira esse caboclo crer. No manto da noite estrelada, deuses caminham, sarças ardem sem queimar, anjos batalham... seres míticos percorrem a noite: Escorpião, Touro, Nix.

(Lembram-me madrugadas geladas na rampa de paraglider, alto da Serra de São Domingos: fogueira, violão, garrafão de vinho, amigos, amores - e um céu inacreditavelmente cheio de estrelas, mas tão cheio que dá a impressão de ser uma abóboda mesmo.)

Nix, a deusa grega da noite, não por acaso é patrona de bruxas e feiticeiras, território da crença e da reverência. Território do céu que se revela, e que tal qual conhecimentos ancestrais, vem sendo apagado de nossas vistas. Quanto mais acendemos nossas cidades e iluminamos a atmosfera, apagamos o céu. E gastamos energia para isso, muita energia.

Fico pensando se a implantação desse modelo terá sido por acaso.


(Rio de Janeiro 22° 56’ 42’’ S, de Thierry Cohen, Danzinger Gallery)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Faça um filme sobre uma carta

Frequentemente me vejo em reuniões com clientes que não sabem ao certo o que querem de seus vídeos. E parte do meu trabalho de roteirista é convencê-lo de tudo o que não precisa estar na tela. Uma ideia que costuma favorecer esse entendimento eu ouvi na faculdade, de um professor de História do Cinema Brasileiro (obrigado, Moura!).

Alberto Cavalcanti, que é um dos patriarcas do cinema brasileiro, foi um documentarista pioneiro no começo do século passado. Uma de suas máximas, que tantos anos depois me ajuda com indecisos diretores de marketing é a primeira de uma lista de catorze - que sugerem um jeito honesto de filmar... ou de viver.

  1. Não generalize; faça um filme sobre uma carta, não sobre os Correios.
  2. Não fuja dos três elementos: o social, o poético, o técnico.
  3. Não negligencie o argumento; quando estiver pronto, o filme está feito.
  4. Não confie no comentário: irrita; comentário engraçado irrita mais; são imagens e sons que contam a história.
  5. Não se esqueça  de que cada  tomada é parte de um todo; a mais bela sequência fora do lugar torna-se banal.
  6. Não invente ângulos gratuitos de câmera; eles destroem a emoção.
  7. Não abuse da montagem rápida; pode ser tão monótona quanto a arrastada.
  8. Não abuse da música; ou a platéia deixa de ouvi-la.
  9. Não abuse de efeitos sonoros; som complementar é a melhor banda.
  10. Não abuse de efeitos óticos; fusões e fades são só a pontuação do filme.
  11. Não abuse dos close-ups; guarde-os para o climax.
  12. Não tema as relações; seres humanos são belos como outros animais.
  13. Não seja confuso; conte a história clara e simplesmente.
  14. Não perca a oportunidade de experimentar; sem experiência o documentário não existe.
(Lista de Alberto Cavalcanti escrita em 1948, mais atual do que nunca.)



Alberto Cavalcanti

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Samba do Coisa Boa

Que tal um samba domingo à tarde no Rio de Janeiro? Um samba em Copacabana, na quadra de escola de samba? É o Samba do Coisa Boa, uma roda de samba vinda diretamente de Madureira, dos seios da Portela, do Império, do Pagode da Tia Doca e de toda a tradição musical dos subúrbios cariocas. Isso produzido pela Retropicália, com seu olhar da cidade múltipla e integrada, arte urbana, música brasileira, cerveja gelada, caipirinhas!

Confira o evento no Facebook! Te espero lá!



sábado, 12 de janeiro de 2013

Yevgeny Yevtushenko: "Memento"

Tal qual um lembrete dessa vida
de bondes, sol, papagaios,
o descontrole inconstante de correntes 
que fazem saltarem termômetros,
e porque patos vão grasnar em outro lugar 
sobre o último gelo, fino como papel,
e porque crianças choram com amargura
(lembra-te a vida das crianças é tão doce!)
e porque sob a luz ébria e cintilante das estrelas
a lua nova abre espaço,
e uma meia esgarça um pouco na altura do joelho,
ouro em si, tingido pelo sol,
tal qual um lembrete da vida,
e porque há resina em troncos de árvores
e porque me enganei loucamente
pensando que minha vida tinha acabado,
tal qual um lembrete da minha vida - 
tu entraste em mim pisando de meias.
Tu entraste - nem muito cedo, nem muito tarde -
exatamente no momento certo, o meu momento próprio,
e com um sorriso, arrancaste-me das memórias
como quem arranca de um túmulo.
E eu, outra vez girando
em meio a cavalos pintados,
troco contente
por um lembrete da vida,
todas suas memórias.



Yevgeny Yevtushenko (1932-)

Yevgeny Yevtushenko é um dos mais importantes poetas russos (e soviéticos) na era pós-Stalin. Sua obra é pouco conhecida no Brasil, exceto talvez por Babi Yar, seu poema sobre os crimes horrendos tanto de alemães quanto de russos contra judeus na Segunda Guerra, que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel de Literatura.

Também pouquíssimo de sua obra se encontra disponível em português na internet. Traduzi Memento, poema de 1974, baseado na tradução americana, de Arthur Boyars e Simon Franklin.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Sobre o autor

Sou roteirista, formado em Cinema (Universidade Federal Fluminense), mestre em Artes da Cena (Universidade Federal do Rio de Janeiro) - com uma dissertação sobre processos criativos do roteirista de séries - professor de Roteiro na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, além de oferecer consultoria de roteiro, palestras e treinamentos em diversas empresas e produtoras.


Nos últimos anos, escrevi as séries “Canta pra Subir” (Migdal - GNT), “Sistema Solar” (República Pureza - GNT) e “As Canalhas - 3a Temporada” (Migdal - GNT), “Paixão Futebol Clube” (Raccord Filmes), vencedora do Edital de Desenvolvimento de Projetos de TV 2012 da RioFilme e “Perdidos”, selecionada  pelo  Programa Globosat  de  Desenvolvimento  de Roteiristas, além de ter criado a série “Jungle Pilots” (Giros/Tambellini - NBC/Universal) e escrito os longametragens “Cedo Demais” (Raccord - FOX), Cine Privê e Brasileiros e Brasileiras.

Em 2014, fundei com Marton Olympio a Dédalo Produções, empresa voltada para a criação de roteiros e gestão de propriedade intelectual. Com pouco mais de dois anos de existência, a Dédalo foi selecionada pelo FSA para receber, por meio do PRODAV 3 - Núcleos Criativos, investimentos para o desenvolvimento de uma carteira de projetos, composta por quatro séries originais e um filme de longametragem voltados para audiências transculturais.

A primeira delas, A Dona da Banca, coprodução com a Raccord Produções, foi selecionada pelo CineBrasilTV para produção em 2018.

Atualmente pesquiso Realidade Virtual e tenho criado para este meio, que vem se tornando uma nova e poderosa ferramenta para contar histórias.

E vem mais por aí...