domingo, 15 de abril de 2012

Yehuda Amichai: Que pena. Éramos tão boa invenção


Nascido Ludwig Pfeuffer, o poeta Yehuda Amichai é um símbolo do renascimento do idioma hebraico e um expoente das artes israelenses. Sua obra, entretanto, é pouco traduzida para o português (apesar de algumas boas traduções do Millôr).

Eu já havia publicado aqui uma tradução que fiz de "Rápido e Amargo", amparado na tradução americana. Dessa vez fui um pouco mais ousado e resolvi partir dos meus (parcos) conhecimentos de hebraico, de um dicionário online, um dicionário offline e um pouco de paciência para saltar o inglês e ir direto à fonte.

No meio do caminho, deparei-me com um artigo sobre o autor que chama atenção para a composição do seu nome - embora de fácil constatação, confesso que eu nunca havia associado uma coisa à outra: Yehuda é o nome em hebraico de Judá, cujos leões são o símbolo mítico da força militar e política dos antigos hebreus, e Amichai é decomponível em Ami (meu povo) e Chai (vida), "meu povo vive".

Que pena. Éramos tão boa invenção


Amputaram
Tuas coxas de meus quadris.
Que me conste
São todos cirurgiões. Todos eles.

Desmontaram-nos
Um do outro.
Que me conste
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos tão boa
e carinhosa invenção.
Um avião feito de homem e mulher
asas e tudo mais.

Pairávamos um pouco sobre a terra.

Chegamos até mesmo a voar um pouquinho.





Original, em hebraico:

חבל. היינו אמצאה טובה / יהודה עמיחי


הם קטעו
את ירכיך ממותני.
לגבי הם תמיד היו רופאים. כולם.

הם פרקו אותנו
.זה מזו. לגבי הם מהנדסים.

חבל. הינו המצאה טובה
ואוהבת; אוירון עשוי מאיש ואישה,
כנפיים והכל:
מעט התרוממנו מן הארץ,
מעט עפנו.

("There were seven in eight", de Jackson Pollock, 1945. Acervo MoMA, Nova Iorque)