domingo, 29 de janeiro de 2012

Um domingo no Facebook

Foi quando César acometeu-se de uma condição que o deixou de cama que ele teve a oportunidade de passar um domingo entre seus 776 amigos do Facebook. Nenhum fazia aniversário naquele dia que acontecia devagar, ainda mais com tanta chuva, bem no meio de uma frente fria que abria parênteses no verão carioca.

Fãs da Martha Medeiros acordam cedo, o cérebro estatístico de César logo começou a trabalhar, mas antes que encontrasse a verdadeira causa desse fenômeno, uma discussão sobre as primeiras linhas de Lolita o distraiu alguns bons minutos da rede social.

Impossibilitado de se afastar por muito tempo, César era atraído para aquela aba com um F pelo barulhinho do chat: alguém lhe chamava. Era Bruno, que estava na merda e precisava contar a mui trágica  e lamentável história de como ele levou para a cama a mulher mais gostosa de sua vida e brochou inapelável e misericordiosamente.

Nada como ouvir uma história de brochada contada pelo próprio brocha.

Seguia o domingo de César com os tradicionais feliz dia do protético contador supervisor de vendas, gatinhos enfrentando cachorros jacarés outros gatinhos. Bebês em todas as formas: mães tias primos irmãos outras espécies de corujas concurso de hipoglós fralda fotógrafo agência de modelo mirim desfile de moda infantil.

Uns reclamando da vida, outros obviamente solteiros. Nenhuma ideologia consistente, pelo menos não naquele domingo. Se alguém filmasse aquilo, daria para fazer um Classe Média: The Very Best of - pelo menos essa era a opinião de César, que por alguma razão se considerava fora da classe média. Embora não fosse nem rico nem pobre, César não se afiliava à Classe Média em termos ideológicos e estéticos. César até pensou em postar alguma coisa sobre isso, mas achou que esse tipo de chilique não levaria a nada. E além disso a Rita Lee já dissera o que precisava ser dito.

A tarde no Facebook parecia durar quinze horas.

Ao chegar da noite (finalmente), ao que se preparava para comer dormir, ocorreu-lhe na última olhadela que nenhum cãozinho havia sido torturado hoje, dado o silêncio dos protetores de animais. Homens devem ter tido cautela em suas palavras sempre machistas, dado o silêncio das feministas. Aparentemente ninguém foi estuprado.

("A Condição Humana", de René Magritte, 1933,
acervo National Art Gallery, Washington DC)