segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

10 Regras para Histórias de Detetive

Compiladas pelo escritor de mistério, editor e, pasmem, padre Robert Knox, a título de prefácio para a edição de 1929 da coletânea Best Detective Stories, estas dez regras ensejam a verossimilhança e a eficácia das histórias de mistério escritas durante a Era Dourada do gênero, no entreguerras.

Tirando a quebradora-chefe de regras Agatha Christie, pode-se dizer que o padre Knox capturou a estrutura de boa parte das histórias que sobreviveram aos dias de hoje.

1. O assassino deve ser mencionado na primeira parte da narrativa, mas não deve ser alguém cujos pensamentos o leitor tenha tido a oportunidade de acompanhar.

2. Nenhum fator sobrenatural ou preternatural é permitido.

3. Não é permitido mais do que um quarto ou passagem secretos.

4. Nenhum veneno ainda não descoberto deve ser usado, tampouco qualquer aparelho que exija uma longa explicação científica ao final.

5. Nenhum chinês deve aparecer na história.

6. O detetive não deve ser ajudado por algum acidente, nem deve ter uma intuição inexplicável que se prove correta.

7. O detetive não deve cometer o crime.

8. O detetive deve revelar ao leitor qualquer pista que venha a descobrir.

9. O amigo estúpido do detetive, seu Watson, não deve esconder do leitor os pensamentos que passem por sua cabeça: sua inteligência deve ser ligeiramente, mas muito ligeiramente, inferior a do leitor médio.

10. Irmãos gêmeos e sósias geralmente não devem aparecer, a menos que tenhamos claramente sido preparado para eles.

Padre Robert Knox, teólogo e escritor de (ótimas) histórias de detetive. 1888-1957


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Yehuda Amichai: "Eis o fim da paisagem"


Eis o fim da paisagem. Entre blocos
de concreto e ferragens
há uma figueira carregada
mas nem as crianças se aproximam para colher.
Eis o fim da paisagem.
Dentro da carcaça de um colchão apodrecendo no campo
permanecem as molas, como almas.

A casa onde vivi fica cada vez mais longe
mas uma luz ainda arde na janela
para que possam apenas ver e não ouvir.
Eis o fim.

E como tornar a amar? é como o problema
dos arquitetos numa cidade velha: como construir
onde houve casas, para que pareça
com dias de outrora, mas também com o agora.

(Yehuda Amichai, trad. Rafael Leal)

"Sem Título", Mark Rothko (1903-70).. Acervo MoMA, NY

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Uns meses atrás achei que flertávamos

Uns meses atrás achei que flertávamos. Que você estivesse efetivamente flertando, ao que eu respondia como um descrente Alvy Singer. (Dizer que andei vendo Woody Allen demais e daí meu pouco apego a mediações soa melhor do que confessar meu ceticismo crônico.) Mas os desencontros são frequentes: diferenças no ritmo ou no olhar?

Damos um tempo. Dez, doze dias. As vezes três semanas ou um mês. Nunca é muito calculado, preciso. Depois desse tempo todo você sempre aparece cheia dessa sua charla e me chama para sair e dá umas indiretas que só são indiretas na minha cabeça. E a gente se vê com uma espécie de tensão muda, defensiva, muscular. E acabamos deixando o caminho de lado.

Outro tempo, diferente. Outra sensação, estranhamente igual.


Annie Hall, 1977. Diane Keaton e Woody Allen.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Piggywish

Outro dia escrevi um vídeo para web. Tenho ouvido de muitos produtores sobre a grande escassez de roteiristas no mercado, ao mesmo tempo em que me pergunto se há efetivamente um mercado de roteiro audiovisual no Brasil...


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um amor impossível


Olhei os dois conversando e ficou claro que não estavam apaixonados. Ele sim, nutria grandes esperanças, ainda que suas canelas estivessem atoladas no lodaçal do realismo. Ela talvez nem o considerasse uma possibilidade real, alheia aos tantos momentos felizes que ele vivera com ela, em sua imaginação.

Olhando o casal pensei na vida ao teu lado - nos fragmentos de vida ao nosso alcance, especificamente. Um fim de semana enfurnado em Geribá ou andar de mãos dadas no pôr-do-sol em China Beach ou qualquer outra fantasia tropical que nos viesse à cabeça.

Queria te dar um presente mas não é seu aniversário. Pensei num livro de Drummond, um que tivesse "Resíduos". Poderias interpretar mal, mas como interpretar mal Drummond?

É só meu o nosso estranho amor. Não participas dele, não como sujeito, não que eu saiba.


Sigo investigando contudo.



("O Amor Impossível",  Dorina Costras)


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Mais um Amichai: "Na história do nosso amor"


Na história do nosso amor,
um é sempre uma tribo nômade, o outro uma nação em seu solo.
Quando trocamos de lugar, tudo se fora.

O tempo nos passará, como passam paisagens
por trás de atores em suas marcas
quando rodam um filme. Mesmo palavras
passarão por nossos lábios, mesmo lágrimas
passarão por nossos olhos. Passará o tempo
Cada um em seu lugar.

E na geografia do resto de nossas vidas,
quem será uma ilha e quem uma península
ficará claro para cada um de nós no resto de nossas vidas
nas noites de amor com outros.



(Yehuda Amichai, trad. Rafael Leal)


("Noiva e Noivo", de Amedeo Modigliani, 1915-1916)

domingo, 15 de abril de 2012

Yehuda Amichai: Que pena. Éramos tão boa invenção


Nascido Ludwig Pfeuffer, o poeta Yehuda Amichai é um símbolo do renascimento do idioma hebraico e um expoente das artes israelenses. Sua obra, entretanto, é pouco traduzida para o português (apesar de algumas boas traduções do Millôr).

Eu já havia publicado aqui uma tradução que fiz de "Rápido e Amargo", amparado na tradução americana. Dessa vez fui um pouco mais ousado e resolvi partir dos meus (parcos) conhecimentos de hebraico, de um dicionário online, um dicionário offline e um pouco de paciência para saltar o inglês e ir direto à fonte.

No meio do caminho, deparei-me com um artigo sobre o autor que chama atenção para a composição do seu nome - embora de fácil constatação, confesso que eu nunca havia associado uma coisa à outra: Yehuda é o nome em hebraico de Judá, cujos leões são o símbolo mítico da força militar e política dos antigos hebreus, e Amichai é decomponível em Ami (meu povo) e Chai (vida), "meu povo vive".

Que pena. Éramos tão boa invenção


Amputaram
Tuas coxas de meus quadris.
Que me conste
São todos cirurgiões. Todos eles.

Desmontaram-nos
Um do outro.
Que me conste
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos tão boa
e carinhosa invenção.
Um avião feito de homem e mulher
asas e tudo mais.

Pairávamos um pouco sobre a terra.

Chegamos até mesmo a voar um pouquinho.





Original, em hebraico:

חבל. היינו אמצאה טובה / יהודה עמיחי


הם קטעו
את ירכיך ממותני.
לגבי הם תמיד היו רופאים. כולם.

הם פרקו אותנו
.זה מזו. לגבי הם מהנדסים.

חבל. הינו המצאה טובה
ואוהבת; אוירון עשוי מאיש ואישה,
כנפיים והכל:
מעט התרוממנו מן הארץ,
מעט עפנו.

("There were seven in eight", de Jackson Pollock, 1945. Acervo MoMA, Nova Iorque)

terça-feira, 6 de março de 2012

Meninas

Em 2005 filmamos o "Meninas". Com uma equipe reduzida e universitária, contando apenas com os parcos recursos da UFF, visitamos diversas boates gays - da Le Boy, em Copacabana, à Papa G, em Madureira - atrás dos shows das principais drag-queens da noite carioca à época.


De todos esses artistas, a Rose Bom Bom merece destaque: respeitada e aclamada pelo público e por seus pares, Rose era uma espécie de rainha das drag-queens, além de palhaço de mão cheia e ator de talento. Sempre quis ter Rose - ou melhor, Pedro Paulo - num filme meu, nalgum outro filme meu, de ficção. Infelizmente a morte antecipou-se.*

Antes dele, Narayanna de Lucca, que também era maquiadora da TV Globo, havia falecido. Falaram em overdose, mas eu nunca soube a história real.*

O filme envelheceu bem. Eu tinha muito medo de que isso não acontecesse, e que se tornasse mais um daqueles tantos curtas que o tempo roeu a coerência. Não posso reivindicar os méritos por isso: os louros, nesse caso, cabem todos aos artistas à frente da câmera. Especialmente Rose Bom Bom.

Cartaz do "Meninas"

*Rose faleceu em decorrência de um coágulo formado após um atropelamento, [dezembro 2011]
*Recentemente faleceu também Kayka Sabatella, vítima de um infarto decorrente do diabetes. [maio 2012]
*Mais recentemente, soube do assassinato de Tara Wells. Uma maldição do "Meninas"? [outubro 2014]

domingo, 29 de janeiro de 2012

Um domingo no Facebook

Foi quando César acometeu-se de uma condição que o deixou de cama que ele teve a oportunidade de passar um domingo entre seus 776 amigos do Facebook. Nenhum fazia aniversário naquele dia que acontecia devagar, ainda mais com tanta chuva, bem no meio de uma frente fria que abria parênteses no verão carioca.

Fãs da Martha Medeiros acordam cedo, o cérebro estatístico de César logo começou a trabalhar, mas antes que encontrasse a verdadeira causa desse fenômeno, uma discussão sobre as primeiras linhas de Lolita o distraiu alguns bons minutos da rede social.

Impossibilitado de se afastar por muito tempo, César era atraído para aquela aba com um F pelo barulhinho do chat: alguém lhe chamava. Era Bruno, que estava na merda e precisava contar a mui trágica  e lamentável história de como ele levou para a cama a mulher mais gostosa de sua vida e brochou inapelável e misericordiosamente.

Nada como ouvir uma história de brochada contada pelo próprio brocha.

Seguia o domingo de César com os tradicionais feliz dia do protético contador supervisor de vendas, gatinhos enfrentando cachorros jacarés outros gatinhos. Bebês em todas as formas: mães tias primos irmãos outras espécies de corujas concurso de hipoglós fralda fotógrafo agência de modelo mirim desfile de moda infantil.

Uns reclamando da vida, outros obviamente solteiros. Nenhuma ideologia consistente, pelo menos não naquele domingo. Se alguém filmasse aquilo, daria para fazer um Classe Média: The Very Best of - pelo menos essa era a opinião de César, que por alguma razão se considerava fora da classe média. Embora não fosse nem rico nem pobre, César não se afiliava à Classe Média em termos ideológicos e estéticos. César até pensou em postar alguma coisa sobre isso, mas achou que esse tipo de chilique não levaria a nada. E além disso a Rita Lee já dissera o que precisava ser dito.

A tarde no Facebook parecia durar quinze horas.

Ao chegar da noite (finalmente), ao que se preparava para comer dormir, ocorreu-lhe na última olhadela que nenhum cãozinho havia sido torturado hoje, dado o silêncio dos protetores de animais. Homens devem ter tido cautela em suas palavras sempre machistas, dado o silêncio das feministas. Aparentemente ninguém foi estuprado.

("A Condição Humana", de René Magritte, 1933,
acervo National Art Gallery, Washington DC)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Incursões poéticas pela adolescência - Parte V

Pensei em escrever um belo soneto
Que não fosse triste, mas sim perfeito.
Fosse simples, direto e com efeito
Mas já na introdução perdi um quarteto.

Pensei na simples aliteração
Livre, leve lépida porém levada
Figura boba logo malfadada
Erro do criador, e não da criação.

Achei a metáfora, mas muito cara,
achei a anáfora, também a inversão.
Achei a anástrofe, inusitada, rara.

A poesia não é problema, é solução.
No meio da rima, nasce a vida, para
O deleite do poeta: a perfeição!




("Soneto do Soneto", escrito em 1998, e premiado no Concurso de Poesia da Secretaria Municipal de Educação)