quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um soneto


Por teu pálido seio uma lágrima escorria
até se espatifar contra tua coxa nua.
O pranto triste que prateava a presença tua,
perdia a cena para o canto da cotovia,

que inflama em teu peito uma paixão que acentua
uma espécie de tesão que é como alegria:
brota no meio do espírito, onde nada havia
e te faz ver um coelho impresso na Lua.

Como se o teu sonho durasse para sempre
-- como se para sempre pudesse durar
tu te lanças aos sabores dessa corrente,

que te eleva e encanta e te faz viver à frente
de um tempo doce que se recusa a passar --
não passa e vai ficando e fica eternamente.


(Rafael Leal, 2011)


("A Estrela", de Edgar Degas, 1876, acervo Musée d´Orsay)