sexta-feira, 22 de julho de 2011

Das dores do crescimento

Penso que nascemos artistas e morremos gerentes. Vimos ao mundo com a função de descobri-lo, de desvendá-lo, de inventar quem seremos e criar, por intermédio de nossas decisões e omissões, nosso próprio percurso pelo tempo.

E desenvolvemos as ferramentas mais adequadas para isso: os olhos curiosos da criança, o sorriso franco e não-administrado, a disputa por atenção - dos pais, das meninas, do mercado. O método, no entanto, é o de tentativa e acerto. À medida que acertamos e erramos, o ser e o corpo gravam como uma tábula rasa o que vamos aprendendo - e vamos chamando esse entalhe de sabedoria, de experiência, de maturidade.

Amamos, rimos, ficamos doentes, viajamos, tomamos porres, gozamos, ganhamos e perdemos pessoas queridas - por estupidez, por morte, por afastamentos (quiçá naturais) - e vamos aprendendo, de uma maneira ou de outra, com doses de prazer e dor, a lidar com isso.

Os anos nos ensinam a administrar nossas relações, a tomar nossas decisões de modo a não cometermos os mesmos erros. Com o tempo, nossas decisões deixam de se encerrar em si mesmas e passam a afetar possibilidades e decisões futuras, nossas e de outras pessoas. Experimentamos e buscamos menos - sem aquela curiosidade infantil advinda da certeza de que nada sabemos - e nos tornamos gerentes de relações, de sentimentos, de pessoas, como se percorrer o presente fosse um dolorido fardo do qual a razão e a maturidade pudessem nos aliviar.




- Não, de maneira alguma. Muito obrigado pela oferta - a muitos tentadora - mas não desejo em montante algum retornar aos dias de minha infância, - eu diria ao fantástico interlocutor que me tivesse feito tal proposta. É claro que sinto saudades dos meus tempos de meninice, das incursões à oficina do meu avô, dos cigarrinhos de chocolate que apareciam na minha cabeceira, das provas a cavalo no Clube Hípico, do cheiro do apartamento da minha avó em Copacabana. Não desejaria contudo navegar o tempo para trás: meu crescimento foi tão repleto de prazer e conflito que tê-lo vivido uma vez me foi o bastante.