domingo, 25 de dezembro de 2011

Quem é Deus?


Jesus certamente não nasceu em 25 de dezembro (não vou entrar na questão do ano, porque isso seria motivo para outra crônica...) e provavelmente esse nem é o dumilésimo décimo segundo ano desde que esse fato milagroso supostamente aconteceu.

A história toda é muito mal contada, mas isso não vem ao caso. Em religião, todas as histórias são mal contadas mesmo. E quando definitivamente não faz sentido nenhum, é porque você não é capaz de compreender os planos do criador.

Para explicar o que não sabemos explicar, nós humanos temos a tendência de inventar histórias, em vez de simplesmente dizermos "não sei". Primeiro dissemos que eram deuses a chuva, as estações do ano, os animais. E logo pedimos que os outros contribuíssem - em dinheiro, se possível - para aplacar a ira desses deuses - sempre todos muito zangados. Com o tempo, fomos dando estofo e complexidade à ideia, testando deuses mais complexos por aí, até Abraão vir com essa versão que usamos até hoje para explicar o que desconhecemos. Já recebeu uns service packs no caminho , mas o conceito permanece basicamente o mesmo.

Por outro lado, apesar de todo o embuste embutido na ideia de um criador consciente e capaz de interagir com a criação, há certas evidências que não podem ser ignoradas.

Também não é fácil explicar o mundo sem uma muleta como um criador bacana que é capaz de fazer tudo e depois ainda parar para contar, em boa poesia hebraica, seu feito. E ainda menos fácil é viver sem uma explicação. Temos a mania de querer explicar tudo - sem lembrar que cada resposta nos abre um outro universo de perguntas, que antes não existia.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um soneto


Por teu pálido seio uma lágrima escorria
até se espatifar contra tua coxa nua.
O pranto triste que prateava a presença tua,
perdia a cena para o canto da cotovia,

que inflama em teu peito uma paixão que acentua
uma espécie de tesão que é como alegria:
brota no meio do espírito, onde nada havia
e te faz ver um coelho impresso na Lua.

Como se o teu sonho durasse para sempre
-- como se para sempre pudesse durar
tu te lanças aos sabores dessa corrente,

que te eleva e encanta e te faz viver à frente
de um tempo doce que se recusa a passar --
não passa e vai ficando e fica eternamente.


(Rafael Leal, 2011)


("A Estrela", de Edgar Degas, 1876, acervo Musée d´Orsay)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Dia D

Com esse trigésimo primeiro, vão-se outubro e o aniversário de Drummond. De tudo fica um pouco, inclusive daquele outubro amargo. Vale a pena ouvir.

http://www.youtube.com/watch?v=KnJgyufTwV0

Trecho do poema "Resíduos", de Carlos Drummond de Andrade, recitado por Paulo Cesar Pinheiro, no show "O importante é que a nossa emoção sobreviva" - um dos melhores momentos da música brasileira a que eu tive acesso. A canção em seguida é "Resíduo", de Eduardo Gudin e Paulo Cesar Pinheiro, interpretada por Marcia.


Resíduos (Carlos Drummond de Andrade)

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço? vazio ? de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um ano bom!


A contagem do tempo é tão arbitrária quanto o próprio tempo. O tempo só existe a partir de quando há gente a dar conta dele, a despeito de tudo que sempre houve, suspenso e atemporal. E como gente é plural, são múltiplas as contagens, cada qual com seu valor e todas com o único propósito de contar, de demonstrar que o tempo passa. E com isso vêm celebrações, presentes na imensa maioria das culturas, lembranças cíclicas de que o tempo passa.

Se tão importante marcar a passagem do tempo, é porque ela traz consigo a certeza de o que passou faz parte do passado. Parece óbvio mas não é.

O casal que exibe o cadáver de seu relacionamento e sua recusa em enterrá-lo, o deputado imbecil que tenta impedir pessoas de orientação sexual diversa tenham seus direitos de cidadãos reconhecidos, o que declara guerra ao terror ou às drogas ou ao vizinho: todos figuras ridículas, anacrônicas, presas no passado, reféns de dogmas que - a despeito do seu valor - fazem parte do passado.

Se cinquenta anos atrás era proscrito o que fugia do sexo convencional e heterossexual, se dava cadeia fumar maconha, ou se uma mulher era presa pela lei a um casamento falido, muito bem. Nos dias de hoje, isso é absolutamente inaceitável e sequer deveríamos estar discutindo.

Da mesma maneira, israelenses e palestinos precisam parar de negociar as negociações - é preciso ir às questões essenciais. Será preciso também que os dois lados façam concessões, não com base no passado e nas bandeiras defendidas por seus pais e avós. É preciso que israelenses e palestinos negociem a paz com base no presente e no que esperam do futuro.

É insustentável tornar o presente menos agradável, menos gentil, por causa do passado, da tradição. Que com o passar do tempo aprendamos trazer do passado só o que contribui para um mundo melhor, e que sepultemos o resto no ocaso.

´Eid Mubarak, Shaná Tová. Uma festa abençoada, um bom ano. Eis o que desejo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sobre erros e acertos


"A life spent making mistakes is not only more honorable, but more useful than a life spent doing nothing." [Uma vida cometendo erros não é apenas mais honrosa, mas também mais útil do que uma vida fazendo nada.] 
-- Sir George Bernard Shaw, dramaturgo irlandês


Compreender que todos os caminhos levam ao mesmo lugar, restando portanto a escolha do mais pleno, do mais correto, o mais prazeroso.

Escolher a ação sobre a inação, a expressão sobre a linguagem, o risco à passividade, o amor ao desamor, o silêncio à estupidez.

Preservar o fluxo natural dos acontecimentos, ciente da volatilidade de planos feitos sobre especulações.

Considerar a dimensão poética das ações.

Propor uma comunicação direta, sem mediação - se possível nem mesmo da linguagem, que, afeita à aspereza e ao rigor, pouco pode ajudar a dizer o inexprimível que pode existir entre duas pessoas.


Uma manhã muito fria no Rio de Janeiro, mas o mar está da cor dos teus olhos.

"Mar de Gelo", óleo sobre tela, 1824, de Caspar David Friedrich (1774-1840)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O frio na barriga

Como explicar aquela sensação do atleta um momento antes da largada, do assaltante à beira de lançar ao chão com uma ordem todos no banco, da atriz detrás da cortina espiando o teatro cheio em busca de um rosto conhecido?

Não é ansiedade nem medo, exatamente, tampouco passa por qualquer tipo de desconforto térmico ou digestivo. O frio na barriga nasce de uma sensação estranhamente familiar de que algo muito desejado - e às vezes temido também - pode estar prestes a acontecer.

Faz com que nos sintamos vivos, conscientes e ao mesmo tempo entregues, à deriva, como enamorados às vésperas de um beijo que sabem certo ainda que não concretizado. Faz com que todas as peças espalhadas encontrem seus lugares numa ordem nova e diferente do usual.

Frio na barriga é sintoma de uma fogueira da qual logo se ouvirão os primeiros crepitares.

"Stairs IV" litografia de Mauritz Cornelis Escher (1898-1972)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Das dores do crescimento

Penso que nascemos artistas e morremos gerentes. Vimos ao mundo com a função de descobri-lo, de desvendá-lo, de inventar quem seremos e criar, por intermédio de nossas decisões e omissões, nosso próprio percurso pelo tempo.

E desenvolvemos as ferramentas mais adequadas para isso: os olhos curiosos da criança, o sorriso franco e não-administrado, a disputa por atenção - dos pais, das meninas, do mercado. O método, no entanto, é o de tentativa e acerto. À medida que acertamos e erramos, o ser e o corpo gravam como uma tábula rasa o que vamos aprendendo - e vamos chamando esse entalhe de sabedoria, de experiência, de maturidade.

Amamos, rimos, ficamos doentes, viajamos, tomamos porres, gozamos, ganhamos e perdemos pessoas queridas - por estupidez, por morte, por afastamentos (quiçá naturais) - e vamos aprendendo, de uma maneira ou de outra, com doses de prazer e dor, a lidar com isso.

Os anos nos ensinam a administrar nossas relações, a tomar nossas decisões de modo a não cometermos os mesmos erros. Com o tempo, nossas decisões deixam de se encerrar em si mesmas e passam a afetar possibilidades e decisões futuras, nossas e de outras pessoas. Experimentamos e buscamos menos - sem aquela curiosidade infantil advinda da certeza de que nada sabemos - e nos tornamos gerentes de relações, de sentimentos, de pessoas, como se percorrer o presente fosse um dolorido fardo do qual a razão e a maturidade pudessem nos aliviar.




- Não, de maneira alguma. Muito obrigado pela oferta - a muitos tentadora - mas não desejo em montante algum retornar aos dias de minha infância, - eu diria ao fantástico interlocutor que me tivesse feito tal proposta. É claro que sinto saudades dos meus tempos de meninice, das incursões à oficina do meu avô, dos cigarrinhos de chocolate que apareciam na minha cabeceira, das provas a cavalo no Clube Hípico, do cheiro do apartamento da minha avó em Copacabana. Não desejaria contudo navegar o tempo para trás: meu crescimento foi tão repleto de prazer e conflito que tê-lo vivido uma vez me foi o bastante.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

What my parents did

My parents tried everything with me. To make me Christian, to make me study English, to play guitar, to respect autorithy, not to swear.

They failed miserably.