domingo, 10 de outubro de 2010

Conta dos anos

E naquela mesa inocente de bar, P. me contou das noites em claro que ele passou num bar que ficava num beco de uma cidade do interior.

Contou-me que nesse bar, seu amigo, o dono, umbigo eternamente encostado o balcão um dia lhe de um disco de presente. Seu passatempo favorito era jogar, com apostas crescentes, jogos de azar contra os cada vez mais bêbados frequentadores. E, nos intervalos, acinzentar manhãs despertas com cinzas que vinham de longe, bolívias inacreditavelmente distantes.

P. ouvia o disco que lhe fora presenteado por seu amigo dono do bar. Sentia saudades imemorias de coisas que ele nunca vira, de que jamais ouviria falar. Faziam parte de outra vida que ele nunca viveria, ou que talvez tivesse vivido numa outra existência.

Cada um comporta em si todas as experiências do mundo, ponderou P., já de manhã.

Fim da linha


Ela não quer ficar com ele de jeito nenhum. Ele não sabe se quer ficar com ela. Ele não fala com ela na internet. Ela fica em dúvida se deve puxar assunto. Ele evita falar do que já foi tanto dito. Ela fica aflita com medo de que ele queira falar tudo de novo. Ele não a telefona. Ela não o telefona. Ela quer que ele a esqueça. Ele não quer esquecê-la. Ela sente ciúmes dele. Ele espera por um futuro distante onde a tenha esquecido ou a tenha a seu lado. Ela acha que ele perde muitas oportunidades por não chegar nas mulheres sem a certeza de que ele tanto gosta. Ele acha que ela está coberta de razão. Ela acha que está fazendo a coisa certa. Ele acha que a dor é maior do que parece. Ela acha que não tem motivos para se preocupar. Ele pensa em mudar de vida. Ela fica feliz que tenham continuado amigos. Ele sabe que a estrada é longa.

Aniversário, 1915, de Marc Chagall. Acervo MoMA (NY)