segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Carta na garrafa

Ela jamais me disse que reparava que a maior parte de sua geração buscava afoitamente o encontro definitivo, esperava nos próximos lábios o caminho de uma paixão de romance de Jane Austen. Isso eu só fui descobrir ao me envolver.
Pensei, mais não falei, que também eu me sentia assim, de vez em quando, principalmente quando não conseguia dormir.

-- Não sou o homem para ti, -- eu nunca disse a ela. -- Não és a mulher para mim. Nossos caminhos, embora tenham se cruzado, seguem em direções muito diferentes.

Ela se sentia triste com isso, mas não deixou transparecer.

E não tive oportunidade de argumentar que isso é bom, ao contrário do que possa parecer. É mágico, é lindo que duas pessoas se encontrem, se amem e, se possível, preservem o que foi construído quando o tempo soprar o que é duna, areia.

***


Não temos nos falado muito. E isso não é bom nem ruim, é apenas uma constatação.

Hoje me ocorreu algo curioso. Acessei ao clicar num link errado uma página que criaras, uma espécie de diário secreto perdido no mar da internet. Uma postagem nova chamou-me a atenção.

Não sei se escreveste para mim ou se apenas a minha mania de perseguição faz caber nas calhas da nossa história as palavras que usaste, mas tuas palavras me tocaram, principalmente porque foram lançadas à internet como um náufrago lança uma carta numa garrafa. A meus olhos é evidente que o náufrago tem esperança de que sua mensagem atinja o destino, principalmente porque esse tipo de esperança cresce conforme esvaziamos as garrafas que lhes servirão de barco.

Ao acaso, arbitrariamente, num tempo que não é planejado nem conveniente. Enfim, chegaram.