domingo, 10 de outubro de 2010

Conta dos anos

E naquela mesa inocente de bar, P. me contou das noites em claro que ele passou num bar que ficava num beco de uma cidade do interior.

Contou-me que nesse bar, seu amigo, o dono, umbigo eternamente encostado o balcão um dia lhe de um disco de presente. Seu passatempo favorito era jogar, com apostas crescentes, jogos de azar contra os cada vez mais bêbados frequentadores. E, nos intervalos, acinzentar manhãs despertas com cinzas que vinham de longe, bolívias inacreditavelmente distantes.

P. ouvia o disco que lhe fora presenteado por seu amigo dono do bar. Sentia saudades imemorias de coisas que ele nunca vira, de que jamais ouviria falar. Faziam parte de outra vida que ele nunca viveria, ou que talvez tivesse vivido numa outra existência.

Cada um comporta em si todas as experiências do mundo, ponderou P., já de manhã.

Fim da linha


Ela não quer ficar com ele de jeito nenhum. Ele não sabe se quer ficar com ela. Ele não fala com ela na internet. Ela fica em dúvida se deve puxar assunto. Ele evita falar do que já foi tanto dito. Ela fica aflita com medo de que ele queira falar tudo de novo. Ele não a telefona. Ela não o telefona. Ela quer que ele a esqueça. Ele não quer esquecê-la. Ela sente ciúmes dele. Ele espera por um futuro distante onde a tenha esquecido ou a tenha a seu lado. Ela acha que ele perde muitas oportunidades por não chegar nas mulheres sem a certeza de que ele tanto gosta. Ele acha que ela está coberta de razão. Ela acha que está fazendo a coisa certa. Ele acha que a dor é maior do que parece. Ela acha que não tem motivos para se preocupar. Ele pensa em mudar de vida. Ela fica feliz que tenham continuado amigos. Ele sabe que a estrada é longa.

Aniversário, 1915, de Marc Chagall. Acervo MoMA (NY)

domingo, 19 de setembro de 2010

O Querer

Se o dia tivesse as horas escuras de um polo norte, acredito que eu teria tempo de sobra. Ando fazendo sambas e amores até a manhã cheia, ouvido mais Chico do que eu deveria, e acreditado, por conseguinte, em mais amores possíveis do que a razão sóbria me faria crer.

Não sei o que queres. Minha avaliação não me julga capaz de crer em tamanha mordomia, embora confesso que ela já me há surpreendido e decepcionado. Talvez mais aquelas do que estas.

Sonhar contigo em meus braços, além de sonho recorrente, é angústia inútil. O tempo se encarregará, como sempre faz, de realizar o que é factível e de varrer o que é sonho, o que é devaneio.

Ao contrário do tempo

Tenho ouvido músicas que não deveria. Mais Billie Holliday e menos Cole Porter. Mais Ângela Rô Rô e menos Novos Baianos. A tristeza – não a tristeza por tua falta de coragem, pelo término de uma relação na qual, mesmo antes de firmar a aposta, eu esperei depositar muitas fichas, mas a tristeza pelos dias de sol que não passaremos, pelos filmes argentinos que não veremos, pelo que sonhamos (sonhei?) e nunca haverá – essa tristeza, 'menina', é uma lança aguda que preciso deformar, desfacetar, despolir, como um joalheiro que trabalhasse ao contrário do tempo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Carta na garrafa

Ela jamais me disse que reparava que a maior parte de sua geração buscava afoitamente o encontro definitivo, esperava nos próximos lábios o caminho de uma paixão de romance de Jane Austen. Isso eu só fui descobrir ao me envolver.
Pensei, mais não falei, que também eu me sentia assim, de vez em quando, principalmente quando não conseguia dormir.

-- Não sou o homem para ti, -- eu nunca disse a ela. -- Não és a mulher para mim. Nossos caminhos, embora tenham se cruzado, seguem em direções muito diferentes.

Ela se sentia triste com isso, mas não deixou transparecer.

E não tive oportunidade de argumentar que isso é bom, ao contrário do que possa parecer. É mágico, é lindo que duas pessoas se encontrem, se amem e, se possível, preservem o que foi construído quando o tempo soprar o que é duna, areia.

***


Não temos nos falado muito. E isso não é bom nem ruim, é apenas uma constatação.

Hoje me ocorreu algo curioso. Acessei ao clicar num link errado uma página que criaras, uma espécie de diário secreto perdido no mar da internet. Uma postagem nova chamou-me a atenção.

Não sei se escreveste para mim ou se apenas a minha mania de perseguição faz caber nas calhas da nossa história as palavras que usaste, mas tuas palavras me tocaram, principalmente porque foram lançadas à internet como um náufrago lança uma carta numa garrafa. A meus olhos é evidente que o náufrago tem esperança de que sua mensagem atinja o destino, principalmente porque esse tipo de esperança cresce conforme esvaziamos as garrafas que lhes servirão de barco.

Ao acaso, arbitrariamente, num tempo que não é planejado nem conveniente. Enfim, chegaram. 

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Custos

Ainda me custa acreditar em pessoas que se importam, que abdicam de casamentos com as filhas da lavadeira em prol de uma vida que sempre traz, insiste em trazer angústia e inconformidade. Ainda me custa um bocado crer em pessoas que possuem valores, em pessoas que creem num D'us mesmo que seja inconsciente, incontornável e inexistente como o meu; em pessoas que se sabem, como tudo na vida, efêmeras.

Ainda me custa acreditar em reciprocidade.




Se o dia me caísse bem como a noite, eu teria ido dormir feliz.

domingo, 23 de maio de 2010

Definição

Um ser humano ardente e aflito,
com muitas travas na boca
e nenhuma no ouvido.

***

Acordei sobressaltado e constatei
que por ação ou omissão
já feri a quem amei.

***

Penso muito em escrever
e deixo sempre pra depois:
Qual o mistério da vida a dois?

terça-feira, 20 de abril de 2010

O resto

Quem sabe um dia desses eu te encontro de noite no Baixo Gávea.

Estarás tomando um chope que compensa a semana, com colegas de trabalho, ou nem terás voltado a morar no Rio e estarás de passagem revendo amigas breves da época de faculdade. Ou nem uma coisa nem outra. E eu, bem, eu não precisarei de desculpas para seguir a minha vida de flaneur.


E trocaremos um semissoriso e seguirá um abraço desconfortável que se tornará aconchegante e pedirão a conta e esticaremos mais um dois dez chopes e talvez um cigarro e falaremos e lembraremos e riremos e constataremos tudo o que podemos ter sido e não fomos.

Uma parte madura e sensata de mim sabe que nunca seremos. A imensidão restante insiste em ter esperanças.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Carnavais

Acho ótimo que exista o carnaval, dado o enorme contigente de foliões, de gente que gosta e que espera por ele o ano todo. Mas também acho muito bom que respeitem meu direito de não gostar de carnaval. E o meu igualmente inalienável direito de mudar de opinião. Esse ano e ano passado tive duas experiências distintas, ora eremita ora ianomami.


2009: Marechal Rondon.
Fui a vários blocos no Rio de Janeiro. Multidões, cheiro de urina, sol inclemente. Céu na terra entupindo as ruas da outrora aprazível Santa Teresa. Celular ligado o tempo todo, sempre a postos para aquele convite inesperado, um mais inesperado do que o outro, todos envolvendo samba, cerveja e suor. O Rio fica irreconhecível no carnaval, espremido entre a obrigação de ser feliz e a maneira como maltratam a cidade.

2010: Alzheimer.
Tentei esquecer que era carnaval. Desliguei o celular, trabalhei no sábado o dia inteiro, coloquei ordem em ideias, papéis e pensamentos. Só fiz uma concessão no domingo, quando varei a noite assistindo ao desfile em companhia de cervejas e de um grande amigo. Mais pelo papo do que pelas escolas. Acho que aos poucos vou me desligando dessas coisas.

2011: Walden.
Pensei em Reijavique. Curitiba fica mais perto. Ou Tel-Aviv, aquecendo os tambores para Purim!


Chag Purim Sameach!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Sobre o mundo

Certa vez, meu pai me disse que o mundo se resumia entre "New York" e "Southern California". Eu, beirando os quinze anos, não tive resposta. Fui criado numa cidade do interior, cercada por uma serra que priva de horizontes seus habitantes, fato que pude constatar ao retornar para lá recentemente por ocasião da comemoração um tanto quanto insensata dos dez anos de formatura no ensino médio.

O tempo passa e os sentimentos vão se acomodando na memória, vão se sedimentando e formando a base do que viremos a ser. Tola nostalgia revirá-los, revolvê-los como um lavrador preparando a terra para o plantio. Ao contrário da agricultura, revolver camadas antigas da poeira assentada das emoções não nos torna mais férteis. Torna-nos amargos.

Hoje eu responderia a meu pai: o mundo não se resume entre New York e Southern California porque o mundo simplesmente não se resume.