quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ninguém me disse

Ninguém me ensinou na faculdade de cinema como se faz um filme. Isso só fui descobrir na vida real, do lado de fora daquelas grades carcomidas que guardam anos tão doces de minha vida.

Ninguém me falou que o diretor briga com o filme que acabou de dirigir; que finalizar um filme é um parto de cócoras, e que quanto mais o tempo passa, menos se gosta da obra que você criou, e mais difícil fica finalizá-lo.

Ninguém me disse que méritos e qualificações valem, no Brasil, menos do que um pedaço de papel higiênico usado dos dois lados. Aqui é a terra dos padrinhos.

Ninguém me disse que, apesar da melhora recente, o cinema nacional era muito ruim, na média, perdido entre falsas pretensões artísticas e incompetências técnicas (embora haja alguns filmes muito bons).

Ninguém me disse que a qualidade do ensino de cinema no Brasil descia correndo ladeira abaixo.

Só me disseram que a saída para o artista brasileiro é o aeroporto.

domingo, 2 de agosto de 2009

Da doçura da manhã

“Homem nenhum, até que tenha sofrido a noite, sabe o quão doce e o quão linda pode ser a manhã a seus olhos e coração.” [Drácula, Abraham 'Bram' Stoker, cap. 4]

  

Hoje não levantei cedo. Meu relógio circadiano bate confuso como a bateria de uma escola de samba da Suécia ou da Polônia. Passei a noite entre a procrastinação e o trabalho interminável diante da tela brilhante do computador. A manhã já ia tarde quando resolvi ir à feira livre que há, aos domingos, na praça dos paraíbas, nesta Copacabana.

Não me lembrava de como era um domingo de manhã em Copacabana. Principalmente um domingo de sol. O recortado das sombras nos prédios, os andares mais altos iluminados - e provavelmente quentes ao limite do insuportável; o vento lambendo os coqueiros na praia; o mar - que vi de longe, descendo a Figueiredo rumo à feira - azul, azul. Velhinhas muchibentas enfiadas em maiôs bordados e seus velhinhos magricelas carregando-lhes a cadeira dobrável.

Nas calçadas das ruas estranhamente vazias para o dia, para quem se acostumou com os dias de semana, há um cheiro de protetor solar e de maresia que vai sendo trocado pelo de peixe e pastel frito conforme vou me aproximando da feira.

Compro um quilo de uvas sem caroço, algumas ervas para um banho, como um pastel e volto zumbizando para casa. Não, ainda não é hora de dormir, diz meu sádico relógio biológico.