sábado, 25 de abril de 2009

Pais e Filhos - Parte IV

- Você reclama do seu namorado, mas não faz ideia do que eu tive que aturar para poder ficar do lado do seu pai.

- Mas valeu a pena, mãe?

- Bom, valeu por você e pelo seu irmão.

- Mas e o amor, o romance, a felicidade conjugal?

- Não durou um ano direito, aí começaram as brigas, aquela fase do casamento em que tudo começa a dar errado e o amor bambeia. O nosso caiu, se esborrachou de tão bambo. Depois que o Rodrigo nasceu, a situação já estava insustentável e eu preferi voltar para a casa da sua avó com vocês dois a tiracolo.

- E você nunca mais viu meu pai?

- O cretino me mandou uma carta, uns anos atrás, dizendo que estava trabalhando numa companhia de navegação, era imediato num cargueiro que iria aportar aqui no Rio dali a uns meses e queria me ver. Mas eu nem respondi.

Silêncio constrangedor, mais para a filha do que para a mãe.

- Mãe, você precisa entender que só porque a sua história de amor não deu certo, nada leva a crer que a minha não pode dar. Nem todos os homens são iguais.

- Isso você ainda vai descobrir, - ponderou a mãe, do alto dos seus muitos anos de estrada.

sábado, 18 de abril de 2009

Incursões poéticas pela adolescência - III

Esse é meu coração
Que eu carrego cansado,
Pesado da tua ainda presença.

E quando eu caio,
E eu sempre caio,
Eu me sinto destruído.

Destruído pela tua ausência.


("Coração", possivelmente escrito em 1996 ou antes.)

Sabores

Sempre penso nos sabores que ficaram para sempre perdidos na infância, comidas que jamais tornarei a provar, quitutes de botequins que desapareceram, cozinheiros há muito (hã, deceased) idos. Penso que talvez passarei meus dias buscando vida afora sabores, sensações, sentimentos que ajudaram, numa razão maior do que posso imaginar, a formar quem eu sou e do que gosto.

O arroz da minha bisavó materna, sobrenaturalmente solto e saboroso, alvo e brando. Na categoria avós, minha avó paterna, falecida há pouco, nunca teve grandes dotes na cozinha. Seu arroz, em comparação, era um uncle benz amarelo e duro como uma espiga de milho. Por isso, sempre pedíamos comida em sua casa. Primeiro, quando eu era criança e ela morava em Copacabana, eram os pastéis de uma "quituteria" disfarçada de restaurante português chamada Ponto-de-Encontro, que existiu por mais de trinta anos na princesinha do mar. Diz a lenda que uma das donas (Lola) foi por muitos anos apaixonada por meu tio. Pois é, mas acontece que, no Ponto de Encontro (onde almocei pela primeira vez com meu pai depois do fim do meu longo exílio mineiro) havia um certo tipo de pastel de carne, de cuja massa era impossível dizer se frita ou assada. Incrível.

Depois de voltar para o Rio, cuidei por alguns anos dessa minha avó paterna, que, teimosa, recusava-se a aceitar seus oitenta anos e insistia em morar sozinha, longe de todos, em Jacarepaguá. Eu frequentava sua casa para fazer-lhe as compras, pagar-lhe as contas e cuidar de sua vida bancária, etc., além de fazer-lhe companhia. Muitos anos (e muitos quilômetros) distante do já-fechado-para-sempre Ponto de Encontro, pedíamos frango à milanesa com arroz piamontês em um botequim da esquina, que felizmente ainda existe e virou franquia. Todos os meus amigos que já comeram atestam se tratar do melhor arroz piamontês dos trópicos.

No exílio mineiro fiquei dez anos. Um dos sabores mais marcantes da minha infância, daqueles que foram para nunca mais voltar, é de lá. Havia, defronte à um colégio com aulas noturnas, um carrinho ambulante de sanduíches (conhecido popularmente como "xis" em Porto Alegre, "lanche" em Minas e São Paulo, e "podrão" cá no Rio), cuja higiene era capaz de assustar assombração. Estalactites de gordura eram o menos alarmante diante da aparência do chapeiro de fala baixa e incompreensível, o Juarez (que na verdade se chamava Hélio). Absurdamente saboroso, a fila de espera era enorme e ele vendia uma quantidade limitada por dia, em torno de cem. Depois que ele morreu precocemente, o carrinho do Juarez entrou para o rol dos sabores de nunca mais.

Fechando esse breve inventário da infância (que apesar de incluir um pouco da adolescência e da vida adulta, é muito, mas muito mais restrito e superficial do que o "Inventário da Infância", livro de memórias de Aldir Blanc), minha lembrança mais antiga: havia uma pizzaria, em Poços de Caldas, chamada Mucciaroni, para onde íamos todos após as competições de hipismo das quais eu participei durante boa parte da infância. Lembro-me de uma porta de ferro com um corredor comprido e estreito que levava a um grande salão, meio integrado à cozinha, onde se faziam pizzas divinas, especialmente uma toscana de cujo sabor, como nos outros casos relatados aqui, jamais fui capaz de me esquecer.