quinta-feira, 12 de março de 2009

Sindicato dos Fracassados do Amor

["Bar tristonho sindicato / De sócios na mesma dor / Bar que é um refugio barato / Dos fracassados no amor" - "Bar da Noite", clássico de Haroldo Barbosa e Bidu Reis]

Todo amor de gente grande acaba no bar. Os que acabam na delegacia são os de crianças a quem não deveria ser permitido amar. Amor é coisa de adultos. E não combina com violência.

Cheguei no bar mais cedo de que costume, fruto de uma visita frustrada ao dentista. Mal entrei, pude perceber a figura encafifada num canto, todos os sinais semiológicos de uma profunda dor (garrafa na mesa - praianinha, pitu, fogo paulista - colarinho desbeiçado, barba por fazer, olhar embotado) - o diagnóstico foi breve: amor perdido.

Sem saco para ouvir-lhe a história, sentei-me no balcão, pedi um chope e uma empada, cardápio muito razoável para dez horas da manhã de um dia de calor senegalês. Logo chegou uma alma mais caridosa do que eu e se propôs a dividir com o pobre infeliz a razão de seu desamor.

Não parei para ouvir. Engoli meu chope com empada, mandei pendurar e saí andando. O que me comoveu foi a eterna oferta de instantâneas amizades de infância que tornam o bar o mais legítimo sindicato dos fracassados do amor.

     

Em tempo, "Sindicato dos Fracassados do Amor" é o nome de uma série de roteiros inéditos sobre histórias de bar, escritas em parceria com Edu Goldenberg, o do buteco (relacionado entre os favoritos deste blog).