sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre poesia

Escrevi poesia até 2000. Talvez a maioridade tenha freiado meu ímpeto poético, mas a estatística está ao meu lado demonstrando que os anos de 1997, 1998 e 1999 foram de intensa atividade poética, que freiou-se ao longo de 2000 e praticamente se extinguiu no terceiro milênio.

Com o tempo, ficou ainda mais difícil escrever poesia. Esse difícil gênero literário é para poucos. Entender as palavras e a vida, e juntar tudo numa obra de arte de mensagem e beleza, ética e estética - ou seja, escrever um poema - é para poucos, entre os quais infelizmente eu não me incluo.

Traduzir prosa e poesia, algo que faço com relativa destreza, ou escrever prosa ou roteiro ou teatro ou cartas ou bilhetes ou dedicatórias, satisfaz em parte minha paixão pela poesia.

Sei da baixa qualidade dos poemas que escrevo. Neste blog, publico alguns poemas escritos na adolescência ("Incursões poéticas pela adolescência, atualmente na parte II) embora sejam pouquíssimos a ver a luz do dia, em contraste com pelo menos duas centenas que ficarão, talvez para sempre, no fundo do baú. Não tenho a menor vontade de torturar meus poucos leitores com poesia ruim.

Prefiro antes a quadradice da prosa bem escrita, o fotorrealismo da escrita cinematográfica, os diálogos curtos e ágeis do teatro ou o enxadrismo de ideias dos monólogos. Quero antes o lirismo e a vontade de um dia saber pô-lo no papel, líquido como um poema.

   

Em tempo: conheço tantos poetas wannabes que torturam sem remorsos a humanidade com seus versos. Invejo-lhes a cara de pau.

Incursões poéticas pela adolescência - II

Quando te vir
quero te amar
intensamente
quero te possuir
arrebentar
e toda a gente
que nos vir
irá corar
por mais que tentes
não fugirás
por que fugir
é indecente
e o amor
resplandecente
é bem maior
está acima
de toda rima
que posso fazer
que posso cantar
que pode nascer
para te encantar.


("Quando te vir", escrito em 1998)

sábado, 14 de março de 2009

Reprodutibilidade Técnica de Discursos

- Tenho certeza de que daqui a cem anos estudarão John de Mol como o maior artista de nossa época - disse ela, cheia das certezas de seus vinte anos, retrucando um rapaz bêbado, sentado do outro lado da mesa, metido a intelectual, que afirmou serem idiotas os que participam tanto quanto os que assistem a programas como Big Brother.

Ela gostava de expressões como "proletarização do homem moderno" e "diferentes planos de recepção e valorização da arte," chupitadas de algum Benjamin, que ela falava com propriedade, sacudindo os cabelos ruivos e terminando seu chope antes que esquentasse.

No verão carioca, o chope esquenta muito rápido.

Até então, ele pouco falara.

- A arte é essencialmente uma experiência estética do espectador, que revela o artista e, em segundo plano, sua mensagem (ou ausência de).

Sua declaração caíra como uma bomba. Isso era exatamente o que Benjamin chamava de Fascismo, o culto à estética em detrimento da politização das massas. O comunismo respondia com a politização das massas.

Se o Big Brother alienava as massas, isso era outra questão, a ser discutidas pelos filósofos e sociólogos, que nunca chegaram perto de compreender a experiência artística. Arte é objeto de artistas. Oscar Wilde, por exemplo, muito mais que Benjamin. O que há é que por trás dos formatos de reality shows não havia um homo ars se expressando.

O assunto seguia tenso, pontuado por reflexões e incompreensões e concordâncias pontuais. O álcool que refrigerava o corpo fazia ferver as mentes.

- Mas sem senso crítico é impossível considerar propriamente o que quer que seja!

E ele discordava: crítico é o de menos. Há outros sensos, outras sensibilidades (ai, Fanny Dashwood) envolvidos, e para ele o central era a experiência estética. Pouco importa a razão quando pode haver tantos níveis pré-expressivos envolvidos na percepção de uma obra de arte.

Pouco se lembravam do que foi discutido quando pediram a conta e saíram do bar caminhando, lambidos pelo vento da preamar naquela noite quente. Ela pensava que a discussão poderia ter sido mais profunda, ele temia que o excesso de razão prática pudesse interferir na inspiração - por vezes mercadológica - que, como quer que fosse, lhe pagava as contas.

Mas compreendia muito bem que o fascínio lançado pelo comunismo sobre os adolescentes se comutava na admiração pelos frankfurtianos no começo da vida adulta. Ele também fora assim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A nova aparência

Depois do fim daquele casamento, não ficou sequer uma semana enfiada em casa. Logo abriu as cortinas - que trocou, por sinal, junto com parte da mobília - e deixou o sol entrar. De pronto foi cortar o cabelo, trocou de academia, de perfume, de dieta. Uma nova fase em sua vida merecia mudanças radicais.

Nada melhor do que uma nova aparência para celebrar um novo rumo.

 

Este blog completa 100 textos e também muda de cara.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sindicato dos Fracassados do Amor

["Bar tristonho sindicato / De sócios na mesma dor / Bar que é um refugio barato / Dos fracassados no amor" - "Bar da Noite", clássico de Haroldo Barbosa e Bidu Reis]

Todo amor de gente grande acaba no bar. Os que acabam na delegacia são os de crianças a quem não deveria ser permitido amar. Amor é coisa de adultos. E não combina com violência.

Cheguei no bar mais cedo de que costume, fruto de uma visita frustrada ao dentista. Mal entrei, pude perceber a figura encafifada num canto, todos os sinais semiológicos de uma profunda dor (garrafa na mesa - praianinha, pitu, fogo paulista - colarinho desbeiçado, barba por fazer, olhar embotado) - o diagnóstico foi breve: amor perdido.

Sem saco para ouvir-lhe a história, sentei-me no balcão, pedi um chope e uma empada, cardápio muito razoável para dez horas da manhã de um dia de calor senegalês. Logo chegou uma alma mais caridosa do que eu e se propôs a dividir com o pobre infeliz a razão de seu desamor.

Não parei para ouvir. Engoli meu chope com empada, mandei pendurar e saí andando. O que me comoveu foi a eterna oferta de instantâneas amizades de infância que tornam o bar o mais legítimo sindicato dos fracassados do amor.

     

Em tempo, "Sindicato dos Fracassados do Amor" é o nome de uma série de roteiros inéditos sobre histórias de bar, escritas em parceria com Edu Goldenberg, o do buteco (relacionado entre os favoritos deste blog).