quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pais e Filhos - Parte III

- Minha filha, você precisa ser mais tolerante com seu pai.

- Mãe, você não imagina o que eu passo todos os dias com ele, - disse a menina, já sem paciência.

- Imagino sim. Fui casada com ele vinte e dois anos.

- Viu? Nem você aguentou, - retorquiu ela, com ar conclusivo.

A mãe respirou fundo, como se tecesse melhor uma resposta óbvia. Queria que a filha entendesse, aos vinte e poucos, coisas que levamos anos para entender. E, normalmente, quando entendemos, já é tarde demais e não podemos desfazer, diluir, apagar, rasurar nosso passado, as mágoas com que lancetamos pessoas outrora tão queridas.

- Minha relação com ele de homem-mulher acabou, mas ainda somos amigos. Intolerância não leva ninguém a nada.

- Mas ele é muito chato, - insistiu, intolerantemente, a garota.

- E você está sendo tão intolerante quanto ele. Nessa altura da vida, não podemos esperar que ele mude tanto. Você é mais nova, tem a obrigação de ser melhor do que seus pais; assim o mundo caminha para frente.

- Você fala isso porque seu pai...

- ...ele é um pai muito melhor para você e para seus irmãos do que o pai dele foi para ele e para seu tio. E você acha que é fácil para ele passar por tudo o que ele está passando nos últimos anos?

- E você acha que é fácil para mim?

- Não, tenho certeza de que não é. Mas você devia se esforçar para ser no mínimo um pouco carinhosa com ele. Ele já não tem muito tempo pela frente, e seria muito civilizado da sua parte melhorar os poucos anos que lhe restam.

- Ele é um grosso, frustrado, incompetente...

- Será que você se julga com a mesma severidade com que o julga?