terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jonas e sua namorada imaginária

Jonas arrumou uma namorada imaginária.

De tanto imaginar como teriam sido seus amores fracassados se tivessem dado certo, partiu de vez para o mundo da imaginação e decidiu tentar ser feliz. Na primeira hora de conversa com uma pretendente - assaz no bar que ele frequentava, no Leblon - ele já imaginava como ela seria como namorada. Uma hora e meia, como esposa. No final da noite, desiludia-se com aquela que ele julgava que não seria uma boa mãe para seus filhos. Que boa mãe ficaria até tão tarde num bar?

Com seu gênio forte e suas fracas convicções, sua carência profunda, seu medo de ser rejeitado e de ficar sozinho, ele adormeceu depois de chegar em casa, ainda vestindo os sapatos. A noite que lhe levara embora a bebedeira e lhe trouxera a ressaca também deixou-lhe de presente ideias mirabolantes.

Engoliu café e um pedaço de bolo seco, foi ao supermercado - comprou bombons, um bom vinho - melhor levar dois, pensou - alguns aperitivos, na volta passou pela floricultura e encomendou um ramalhete enorme de flores do campo. Sequer reparou no olhar torto da balconista quando ele assinou: Com carinho, Tua Ivone. E mandou entregar.

Com a alma muito mais leve, partiu para o barbeiro, onde cortou o cabelo, fez a barba, massageou os pés. Quando chegou em casa, cruzou com o entregador da floricultura. 

- Eu mesmo recebo, são para mim, - e enfiou, sorridente, cinco reais no bolso do rapaz.

Os amigos logo notaram a transformação. Que milagres essa mulher estava operando com Jonas? Definitivamente não era mais o mesmo. Começou a desfilar com roupas novas, alinhadas, elegantes, trocou o leite de colônia por um Paco Rabani, as olheiras sumiram-lhe do rosto e um insuportável sorrisinho de felicidade nasceu-lhe entre os lábios.

Outro dia, voltando da praia, encontrei-o no bar. Nem eram dez da manhã e o infeliz já tinha enxugado meia garrafa de Fogo Paulista.

- Ô, meu filho, o que houve contigo?

- Tô mal...

- Deixa a sua mulher te ver aqui.

- Aquela puta morreu para mim. Peguei ela com outro.

Depois de constatar que a situação estava mais feia do que a comissão de frente da caixa de Pandora*, decidi cortar a conversa, antes que o chamado do bar me fizesse sentar ali com ele.

O homem, quando nasce para corno, não há imaginação que dê jeito.

* Crédito: Jansen Raveira pela expressão.