quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pais e Filhos - Parte III

- Minha filha, você precisa ser mais tolerante com seu pai.

- Mãe, você não imagina o que eu passo todos os dias com ele, - disse a menina, já sem paciência.

- Imagino sim. Fui casada com ele vinte e dois anos.

- Viu? Nem você aguentou, - retorquiu ela, com ar conclusivo.

A mãe respirou fundo, como se tecesse melhor uma resposta óbvia. Queria que a filha entendesse, aos vinte e poucos, coisas que levamos anos para entender. E, normalmente, quando entendemos, já é tarde demais e não podemos desfazer, diluir, apagar, rasurar nosso passado, as mágoas com que lancetamos pessoas outrora tão queridas.

- Minha relação com ele de homem-mulher acabou, mas ainda somos amigos. Intolerância não leva ninguém a nada.

- Mas ele é muito chato, - insistiu, intolerantemente, a garota.

- E você está sendo tão intolerante quanto ele. Nessa altura da vida, não podemos esperar que ele mude tanto. Você é mais nova, tem a obrigação de ser melhor do que seus pais; assim o mundo caminha para frente.

- Você fala isso porque seu pai...

- ...ele é um pai muito melhor para você e para seus irmãos do que o pai dele foi para ele e para seu tio. E você acha que é fácil para ele passar por tudo o que ele está passando nos últimos anos?

- E você acha que é fácil para mim?

- Não, tenho certeza de que não é. Mas você devia se esforçar para ser no mínimo um pouco carinhosa com ele. Ele já não tem muito tempo pela frente, e seria muito civilizado da sua parte melhorar os poucos anos que lhe restam.

- Ele é um grosso, frustrado, incompetente...

- Será que você se julga com a mesma severidade com que o julga?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre limites

["O mundo passa por mim todos os dias / Mas eu passo pelo mundo uma vez" ("O mundo é assim", de Oswaldo dos Santos, o Alvaiade (1913-1981)]

Não serei eu o advogado de coisas pequenas, nem de grandes causas perdidas. Não defendo prazeres comezinhos nem dependem de feitos grandiosos os meus prazeres vitais. Mas não digo que já não fui assim.

Já fui daqueles que sentam na calçada para beber cerveja nem tão gelada assim com amigos nem tão amigos assim. Já virei noites alimentando chiqueiros com minhas pérolas poucas. Também já me vesti de dourado achando que a fantasia faz o carnaval. Orgias nababescas vazias de seres humanos, luxo e ópio.

Antes de tudo, gosto de conforto. Conforto e delicadeza, seja no alto do morro ou no fundo de um riquíssimo poço, seja lá ou seja aqui, seja num bingo em Madureira ou no El Tigre. Delicadeza e conforto estão em olhos e almas, mais do que em mapas e carteiras.

Gosto de prazeres intensos, de pessoas intensas, que dominem até mesmo a ciência de se fazer absolutamente nada com toda a intensidade do mundo.

Gosto do muro dos limites, para que eu ande ora de cada lado dele, alternadamente. De que valeriam as estradas sem um limite de velocidade que eu possa, e deva, romper? E de que valeriam também meus limites se eu não souber extrair prazer de respeitá-los?

E, sendo assim, que me dirá o contrário?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pais e Filhos - Parte II

- Minha filha, você não deveria namorar esse rapaz.

- Por que, pai? Eu estou apaixonada por ele. Sou maior de idade, vacinada, ele é um cara legal, você conhece a família dele. Não vejo problema nenhum em namorá-lo.

- Aí reside o problema. Paixões e ausências de problemas não combinam, minha filha. Calmaria é uma ótima notícia para marinheiros e péssima para amantes.

Ela sabia que seu pai tinha razão, mas detestava aquele tom de sábio da montanha e suas frases de efeito.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jonas e sua namorada imaginária

Jonas arrumou uma namorada imaginária.

De tanto imaginar como teriam sido seus amores fracassados se tivessem dado certo, partiu de vez para o mundo da imaginação e decidiu tentar ser feliz. Na primeira hora de conversa com uma pretendente - assaz no bar que ele frequentava, no Leblon - ele já imaginava como ela seria como namorada. Uma hora e meia, como esposa. No final da noite, desiludia-se com aquela que ele julgava que não seria uma boa mãe para seus filhos. Que boa mãe ficaria até tão tarde num bar?

Com seu gênio forte e suas fracas convicções, sua carência profunda, seu medo de ser rejeitado e de ficar sozinho, ele adormeceu depois de chegar em casa, ainda vestindo os sapatos. A noite que lhe levara embora a bebedeira e lhe trouxera a ressaca também deixou-lhe de presente ideias mirabolantes.

Engoliu café e um pedaço de bolo seco, foi ao supermercado - comprou bombons, um bom vinho - melhor levar dois, pensou - alguns aperitivos, na volta passou pela floricultura e encomendou um ramalhete enorme de flores do campo. Sequer reparou no olhar torto da balconista quando ele assinou: Com carinho, Tua Ivone. E mandou entregar.

Com a alma muito mais leve, partiu para o barbeiro, onde cortou o cabelo, fez a barba, massageou os pés. Quando chegou em casa, cruzou com o entregador da floricultura. 

- Eu mesmo recebo, são para mim, - e enfiou, sorridente, cinco reais no bolso do rapaz.

Os amigos logo notaram a transformação. Que milagres essa mulher estava operando com Jonas? Definitivamente não era mais o mesmo. Começou a desfilar com roupas novas, alinhadas, elegantes, trocou o leite de colônia por um Paco Rabani, as olheiras sumiram-lhe do rosto e um insuportável sorrisinho de felicidade nasceu-lhe entre os lábios.

Outro dia, voltando da praia, encontrei-o no bar. Nem eram dez da manhã e o infeliz já tinha enxugado meia garrafa de Fogo Paulista.

- Ô, meu filho, o que houve contigo?

- Tô mal...

- Deixa a sua mulher te ver aqui.

- Aquela puta morreu para mim. Peguei ela com outro.

Depois de constatar que a situação estava mais feia do que a comissão de frente da caixa de Pandora*, decidi cortar a conversa, antes que o chamado do bar me fizesse sentar ali com ele.

O homem, quando nasce para corno, não há imaginação que dê jeito.

* Crédito: Jansen Raveira pela expressão.