terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Paradoxo do Hedonismo

- Quer arrumar uma namorada linda, carinhosa, et cetera, perfeita?
- Como é uma namorada et cetera?
- Você entendeu. Quer ou não quer?
- Não, obrigado.

Silêncio.

- Se você não disser que quer, não posso concluir meu raciocínio.
- Mas eu não quero.
- É linguagem figurada.
- Eu já tenho namorada.

Silêncio. Algúem começa a ficar irritado.

- Tá, vamos supor que eu não tivesse namorada e que eu estivesse desesperado para namorar a tal et cetera. E aí?
- Ah, bem. E aí que você não conseguiria achar ninguém que lhe satisfizesse.
- E a et cetera?
- Não era ninguém específico. Era só para descrever uma pessoa bacana.
- Ahhhhh. E aonde você quer chegar? - cada vez mais incrédulo no rumo insólito da conversa.

- Quero dizer que quanto mais você procura, mais difícil fica você encontrar. Vou tentar enunciar esse postulado de forma diferente: "quanto mais avidez há na busca do prazer, mais fugidia se torna sua realização."

Ambos pensativos.

- Em que borracharia você ouviu isso? - foi a última das provocações. Mas que depois ficou pensando no assunto, ah, isso ficou.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estandarte da Agonia

Pegou a garrafa depois o gelo e o copo. Serviu uma dose apressada e voltou para o quarto. Tirou de cima da mesinha de cabeceira as bulas de remédios, as anotações cercadas de garatujas e os tocos de cigarro - tudo já sem sombra da importância que tiveram. Abriu a cortina depois fechou-a um pouco. Viu que chovia. Recolheu as roupas espalhadas e os lençóis, enfurnou tudo num cesto no banheiro e voltou para a sala. Arrumando seu quarto, arrumava sua alma. Pegou o violão e não teve coragem de tocar. Sentou-se na sala escura e ficou em silêncio. 

Apenas o gelo estalava naquela noite quente de verão.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Pais e Filhos - Parte I

Contou-me uma querida amiga que decidira, sem sofrimento, furar as orelhas de sua filha ainda na maternidade. As suas próprias orelhas foram perfuradas com um brinco somente aos oito anos.

"E doeu?" - eu perguntei.

"Deve ter doído," - ela me confidenciou - "pelo tanto que meu pai chorava, deve ter doído muito."