quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Domingos

"Não importa o que o passado fez de mim. Importa o que farei com o que o passado fez de mim."

--Domingos Oliveira, caetaneando.

Goiás E.C.

Eu apóio Dostoiewski Mariatt para cônsul do Goiás E. C. no Rio de Janeiro. Afirmo e reitero que não há ninguém, nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, que represente o futebol do cerrado brasileiro com tanta decência quanto este goiano de Colméia, hoje Tocantins. muito embora Goiás quando de seu nascimento.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Primeiros Passos

Teatro amador, a peça era "O Embarque de Noé", de Maria Clara Machado. Dei meus primeiros passos no teatro que me levaria ao cinema e a tantos lugares inimagináveis que são todos tão inúteis levado pelas mãos da tão querida quanto polêmica Maria do Céu.

No final das apresentações, ganhamos dela um cartão feito à mão com os dizeres:

"O artista ama aquilo que não existe. Feliz 1994. Céu."

É, Céu, acho que começo a entender o que você quis dizer.

Incursões poéticas pela adolescência - IV

"Já quase nem sonho
nem quase mais durmo
mal me recomponho
calado e soturno
meus dias tristonhos
eu passo sozinho
guardando a tristeza
que esconde a beleza
que está em meu caminho
eu sou fortaleza
um cofre de mim
mas chega uma hora -
para mim é agora -
em que perco essa luta
essa eterna disputa
e deixo a tristeza
vencer novamente...
nem me dá revanche
a tristeza vem toda de uma vez
como avalanche."

 

("Avalanche", provavelmente 1999.)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Sandoval tá mudado

Outro dia procurei pela internet a letra de um samba clássico e esquecido de Aldir Blanc, João Nogueira e Maurício Tapajós, que me coube a boa sorte de puxar numa roda de samba a que fui tempos atrás no Bip-Bip. Não encontrei. Para ajudar possíveis futuros buscadores, postá-la-ei aqui. Há muito tempo que não posto uma letra ou poema do Aldir, um dos meus poetas mais 'favoritos de todos os tempos'. Mestre dos mestres, como eu costumava chamar em 2005, quando começou esse blog.

"O SANDOVAL TÁ MUDADO"
No pronto-socorro do Andaraí
tu entra cajá e sai caqui;
na urgência do Miguel Couto,
um tubarão virou boto;
mas o pior sucedeu
a tio meu lá no Rocha Faria:
ai, ai, ai, ai,
entrou Sandoval, saiu Ana Maria.

Couve não vira repolho,
eu colho no pé o que o pé tem que dar,
mesmo regando com molho,
provando esse olho não vou me enganar,
o Sandoval se intromete
e compromete a muda que vou me mudar;
Sandova disfarça, Bangu songamonga,
mas trunfa cenouras que nem Pernalonga...

Ai, ai, ai, ai,
entrou Sandoval, saiu Ana Maria.

Nas hortaliças que eu papo,
só vejo grilinho, uma ou outra touceira...
o Sandoval quer quiabo, exige pepino seca-pimenteira,
a própria Muda admite que é circular
e não tem medo disso
mas há diferença entre um lombo aos domingos
e alguém que só pensa em sentar num chouriço.

Ai, ai, ai, ai,
entrou Sandoval, saiu Ana Maria...


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ninguém me disse

Ninguém me ensinou na faculdade de cinema como se faz um filme. Isso só fui descobrir na vida real, do lado de fora daquelas grades carcomidas que guardam anos tão doces de minha vida.

Ninguém me falou que o diretor briga com o filme que acabou de dirigir; que finalizar um filme é um parto de cócoras, e que quanto mais o tempo passa, menos se gosta da obra que você criou, e mais difícil fica finalizá-lo.

Ninguém me disse que méritos e qualificações valem, no Brasil, menos do que um pedaço de papel higiênico usado dos dois lados. Aqui é a terra dos padrinhos.

Ninguém me disse que, apesar da melhora recente, o cinema nacional era muito ruim, na média, perdido entre falsas pretensões artísticas e incompetências técnicas (embora haja alguns filmes muito bons).

Ninguém me disse que a qualidade do ensino de cinema no Brasil descia correndo ladeira abaixo.

Só me disseram que a saída para o artista brasileiro é o aeroporto.

domingo, 2 de agosto de 2009

Da doçura da manhã

“Homem nenhum, até que tenha sofrido a noite, sabe o quão doce e o quão linda pode ser a manhã a seus olhos e coração.” [Drácula, Abraham 'Bram' Stoker, cap. 4]

  

Hoje não levantei cedo. Meu relógio circadiano bate confuso como a bateria de uma escola de samba da Suécia ou da Polônia. Passei a noite entre a procrastinação e o trabalho interminável diante da tela brilhante do computador. A manhã já ia tarde quando resolvi ir à feira livre que há, aos domingos, na praça dos paraíbas, nesta Copacabana.

Não me lembrava de como era um domingo de manhã em Copacabana. Principalmente um domingo de sol. O recortado das sombras nos prédios, os andares mais altos iluminados - e provavelmente quentes ao limite do insuportável; o vento lambendo os coqueiros na praia; o mar - que vi de longe, descendo a Figueiredo rumo à feira - azul, azul. Velhinhas muchibentas enfiadas em maiôs bordados e seus velhinhos magricelas carregando-lhes a cadeira dobrável.

Nas calçadas das ruas estranhamente vazias para o dia, para quem se acostumou com os dias de semana, há um cheiro de protetor solar e de maresia que vai sendo trocado pelo de peixe e pastel frito conforme vou me aproximando da feira.

Compro um quilo de uvas sem caroço, algumas ervas para um banho, como um pastel e volto zumbizando para casa. Não, ainda não é hora de dormir, diz meu sádico relógio biológico.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Farewell (fragmento)

"Farewell" para mim é uma das palavras mais lindas (sonoramente) da língua inglesa, que adoro. Parece conter toda a saudade que é inexprimível em inglês, porque não existe essa palavra saudade.

Também é o título de um poema do genial Pablo Neruda, do primeiro livro dele, publicado em 1923, quando o sujeito tinha apenas dezenove anos. Neruda é, ao lado de Drummond, de Amichai, de Ginsberg, a própria voz da poesia no século vinte. 

Hoje, por acaso, tomei em minhas mãos o meu exemplar surrado do "Crepusculário" (o tal primeiro livro) e ao abrir, aleatoriamente, deparei-me com o poema, cujo fragmento que mais me toca, sempre, transcrevo abaixo:

   

"Amo el amor de los marineros
que besan y se van.

Dejan una promesa
No vuelven nunca más.

En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.

Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar."

   

Usando meu parco espanhol, ouso arriscar uma traduçãozinha, como se precisasse. (Vai que há algum leitor com o espanhol ainda mais parco do que o meu...)

"Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite dormirão com a morte
em seu leito de mar."

  

Em tempo: prometo, para breve, tornar a publicar alguma coisa inédita, original se possível. Chega de traças. Farewell.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Yehuda Amichai: "Rápido e Amargo"

Ando cada vez mais apaixonado pela obra de Yehuda Amichai, um dos principais poetas da história de Israel. Um Carlos Drummond de Andrade de lá, permito-me dizer. Um dos grandes do século XX. Entretanto, há pouquíssima coisa dele disponível em português, de modo que resolvi postar, na medida do possível e da inspiração, alguma coisa aqui. Naturalmente, minhas traduções usam a tradução americana (nesse caso, de Assia Gutman) como ponte, porque o meu hebraico (ainda) não dá para tanto.

Rápido e Amargo

O fim foi rápido e amargo.
Lento e doce foi o tempo entre nós,
Lentas e doces eram as noites
Quando minhas mãos não se juntaram em desespero
Mas com o amor do teu corpo
Que se espreitava entre elas.
E quando penetrei você
Pareceu então que a felicidade suprema
podia ser medida com a precisão
da dor lancinante. Rápida e amarga.
Lentas e doces eram as noites.
O agora é amargo e opressor como o deserto --
"Devemos ser sensíveis" e maldições similares.
E conforme nos afastamos do amor
Multilplicamos as palavras,
Palavras e frases longas e obedientes.
Tivéssemos ficado juntos
Poderíamos nos ter tornado um silêncio.

(Yehuda Amichai*, "Quick and Bitter", trad. Rafael Leal)

Yehuda Amichai (1924-2000)   


*Yehuda Amichai foi um poeta israelense nascido na Alemanha, de onde emigrou aos 12 anos. Seus poemas são cheios de humor e pesar, e são escritos em hebraico coloquial, capturando a riqueza vernacular das ruas e do povo multifacetado de Israel, contribuindo numa dimensão incalculável para o desenvolvimento do idioma e da identidade judaicos.

sábado, 25 de abril de 2009

Pais e Filhos - Parte IV

- Você reclama do seu namorado, mas não faz ideia do que eu tive que aturar para poder ficar do lado do seu pai.

- Mas valeu a pena, mãe?

- Bom, valeu por você e pelo seu irmão.

- Mas e o amor, o romance, a felicidade conjugal?

- Não durou um ano direito, aí começaram as brigas, aquela fase do casamento em que tudo começa a dar errado e o amor bambeia. O nosso caiu, se esborrachou de tão bambo. Depois que o Rodrigo nasceu, a situação já estava insustentável e eu preferi voltar para a casa da sua avó com vocês dois a tiracolo.

- E você nunca mais viu meu pai?

- O cretino me mandou uma carta, uns anos atrás, dizendo que estava trabalhando numa companhia de navegação, era imediato num cargueiro que iria aportar aqui no Rio dali a uns meses e queria me ver. Mas eu nem respondi.

Silêncio constrangedor, mais para a filha do que para a mãe.

- Mãe, você precisa entender que só porque a sua história de amor não deu certo, nada leva a crer que a minha não pode dar. Nem todos os homens são iguais.

- Isso você ainda vai descobrir, - ponderou a mãe, do alto dos seus muitos anos de estrada.

sábado, 18 de abril de 2009

Incursões poéticas pela adolescência - III

Esse é meu coração
Que eu carrego cansado,
Pesado da tua ainda presença.

E quando eu caio,
E eu sempre caio,
Eu me sinto destruído.

Destruído pela tua ausência.


("Coração", possivelmente escrito em 1996 ou antes.)

Sabores

Sempre penso nos sabores que ficaram para sempre perdidos na infância, comidas que jamais tornarei a provar, quitutes de botequins que desapareceram, cozinheiros há muito (hã, deceased) idos. Penso que talvez passarei meus dias buscando vida afora sabores, sensações, sentimentos que ajudaram, numa razão maior do que posso imaginar, a formar quem eu sou e do que gosto.

O arroz da minha bisavó materna, sobrenaturalmente solto e saboroso, alvo e brando. Na categoria avós, minha avó paterna, falecida há pouco, nunca teve grandes dotes na cozinha. Seu arroz, em comparação, era um uncle benz amarelo e duro como uma espiga de milho. Por isso, sempre pedíamos comida em sua casa. Primeiro, quando eu era criança e ela morava em Copacabana, eram os pastéis de uma "quituteria" disfarçada de restaurante português chamada Ponto-de-Encontro, que existiu por mais de trinta anos na princesinha do mar. Diz a lenda que uma das donas (Lola) foi por muitos anos apaixonada por meu tio. Pois é, mas acontece que, no Ponto de Encontro (onde almocei pela primeira vez com meu pai depois do fim do meu longo exílio mineiro) havia um certo tipo de pastel de carne, de cuja massa era impossível dizer se frita ou assada. Incrível.

Depois de voltar para o Rio, cuidei por alguns anos dessa minha avó paterna, que, teimosa, recusava-se a aceitar seus oitenta anos e insistia em morar sozinha, longe de todos, em Jacarepaguá. Eu frequentava sua casa para fazer-lhe as compras, pagar-lhe as contas e cuidar de sua vida bancária, etc., além de fazer-lhe companhia. Muitos anos (e muitos quilômetros) distante do já-fechado-para-sempre Ponto de Encontro, pedíamos frango à milanesa com arroz piamontês em um botequim da esquina, que felizmente ainda existe e virou franquia. Todos os meus amigos que já comeram atestam se tratar do melhor arroz piamontês dos trópicos.

No exílio mineiro fiquei dez anos. Um dos sabores mais marcantes da minha infância, daqueles que foram para nunca mais voltar, é de lá. Havia, defronte à um colégio com aulas noturnas, um carrinho ambulante de sanduíches (conhecido popularmente como "xis" em Porto Alegre, "lanche" em Minas e São Paulo, e "podrão" cá no Rio), cuja higiene era capaz de assustar assombração. Estalactites de gordura eram o menos alarmante diante da aparência do chapeiro de fala baixa e incompreensível, o Juarez (que na verdade se chamava Hélio). Absurdamente saboroso, a fila de espera era enorme e ele vendia uma quantidade limitada por dia, em torno de cem. Depois que ele morreu precocemente, o carrinho do Juarez entrou para o rol dos sabores de nunca mais.

Fechando esse breve inventário da infância (que apesar de incluir um pouco da adolescência e da vida adulta, é muito, mas muito mais restrito e superficial do que o "Inventário da Infância", livro de memórias de Aldir Blanc), minha lembrança mais antiga: havia uma pizzaria, em Poços de Caldas, chamada Mucciaroni, para onde íamos todos após as competições de hipismo das quais eu participei durante boa parte da infância. Lembro-me de uma porta de ferro com um corredor comprido e estreito que levava a um grande salão, meio integrado à cozinha, onde se faziam pizzas divinas, especialmente uma toscana de cujo sabor, como nos outros casos relatados aqui, jamais fui capaz de me esquecer.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sobre poesia

Escrevi poesia até 2000. Talvez a maioridade tenha freiado meu ímpeto poético, mas a estatística está ao meu lado demonstrando que os anos de 1997, 1998 e 1999 foram de intensa atividade poética, que freiou-se ao longo de 2000 e praticamente se extinguiu no terceiro milênio.

Com o tempo, ficou ainda mais difícil escrever poesia. Esse difícil gênero literário é para poucos. Entender as palavras e a vida, e juntar tudo numa obra de arte de mensagem e beleza, ética e estética - ou seja, escrever um poema - é para poucos, entre os quais infelizmente eu não me incluo.

Traduzir prosa e poesia, algo que faço com relativa destreza, ou escrever prosa ou roteiro ou teatro ou cartas ou bilhetes ou dedicatórias, satisfaz em parte minha paixão pela poesia.

Sei da baixa qualidade dos poemas que escrevo. Neste blog, publico alguns poemas escritos na adolescência ("Incursões poéticas pela adolescência, atualmente na parte II) embora sejam pouquíssimos a ver a luz do dia, em contraste com pelo menos duas centenas que ficarão, talvez para sempre, no fundo do baú. Não tenho a menor vontade de torturar meus poucos leitores com poesia ruim.

Prefiro antes a quadradice da prosa bem escrita, o fotorrealismo da escrita cinematográfica, os diálogos curtos e ágeis do teatro ou o enxadrismo de ideias dos monólogos. Quero antes o lirismo e a vontade de um dia saber pô-lo no papel, líquido como um poema.

   

Em tempo: conheço tantos poetas wannabes que torturam sem remorsos a humanidade com seus versos. Invejo-lhes a cara de pau.

Incursões poéticas pela adolescência - II

Quando te vir
quero te amar
intensamente
quero te possuir
arrebentar
e toda a gente
que nos vir
irá corar
por mais que tentes
não fugirás
por que fugir
é indecente
e o amor
resplandecente
é bem maior
está acima
de toda rima
que posso fazer
que posso cantar
que pode nascer
para te encantar.


("Quando te vir", escrito em 1998)

sábado, 14 de março de 2009

Reprodutibilidade Técnica de Discursos

- Tenho certeza de que daqui a cem anos estudarão John de Mol como o maior artista de nossa época - disse ela, cheia das certezas de seus vinte anos, retrucando um rapaz bêbado, sentado do outro lado da mesa, metido a intelectual, que afirmou serem idiotas os que participam tanto quanto os que assistem a programas como Big Brother.

Ela gostava de expressões como "proletarização do homem moderno" e "diferentes planos de recepção e valorização da arte," chupitadas de algum Benjamin, que ela falava com propriedade, sacudindo os cabelos ruivos e terminando seu chope antes que esquentasse.

No verão carioca, o chope esquenta muito rápido.

Até então, ele pouco falara.

- A arte é essencialmente uma experiência estética do espectador, que revela o artista e, em segundo plano, sua mensagem (ou ausência de).

Sua declaração caíra como uma bomba. Isso era exatamente o que Benjamin chamava de Fascismo, o culto à estética em detrimento da politização das massas. O comunismo respondia com a politização das massas.

Se o Big Brother alienava as massas, isso era outra questão, a ser discutidas pelos filósofos e sociólogos, que nunca chegaram perto de compreender a experiência artística. Arte é objeto de artistas. Oscar Wilde, por exemplo, muito mais que Benjamin. O que há é que por trás dos formatos de reality shows não havia um homo ars se expressando.

O assunto seguia tenso, pontuado por reflexões e incompreensões e concordâncias pontuais. O álcool que refrigerava o corpo fazia ferver as mentes.

- Mas sem senso crítico é impossível considerar propriamente o que quer que seja!

E ele discordava: crítico é o de menos. Há outros sensos, outras sensibilidades (ai, Fanny Dashwood) envolvidos, e para ele o central era a experiência estética. Pouco importa a razão quando pode haver tantos níveis pré-expressivos envolvidos na percepção de uma obra de arte.

Pouco se lembravam do que foi discutido quando pediram a conta e saíram do bar caminhando, lambidos pelo vento da preamar naquela noite quente. Ela pensava que a discussão poderia ter sido mais profunda, ele temia que o excesso de razão prática pudesse interferir na inspiração - por vezes mercadológica - que, como quer que fosse, lhe pagava as contas.

Mas compreendia muito bem que o fascínio lançado pelo comunismo sobre os adolescentes se comutava na admiração pelos frankfurtianos no começo da vida adulta. Ele também fora assim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A nova aparência

Depois do fim daquele casamento, não ficou sequer uma semana enfiada em casa. Logo abriu as cortinas - que trocou, por sinal, junto com parte da mobília - e deixou o sol entrar. De pronto foi cortar o cabelo, trocou de academia, de perfume, de dieta. Uma nova fase em sua vida merecia mudanças radicais.

Nada melhor do que uma nova aparência para celebrar um novo rumo.

 

Este blog completa 100 textos e também muda de cara.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Sindicato dos Fracassados do Amor

["Bar tristonho sindicato / De sócios na mesma dor / Bar que é um refugio barato / Dos fracassados no amor" - "Bar da Noite", clássico de Haroldo Barbosa e Bidu Reis]

Todo amor de gente grande acaba no bar. Os que acabam na delegacia são os de crianças a quem não deveria ser permitido amar. Amor é coisa de adultos. E não combina com violência.

Cheguei no bar mais cedo de que costume, fruto de uma visita frustrada ao dentista. Mal entrei, pude perceber a figura encafifada num canto, todos os sinais semiológicos de uma profunda dor (garrafa na mesa - praianinha, pitu, fogo paulista - colarinho desbeiçado, barba por fazer, olhar embotado) - o diagnóstico foi breve: amor perdido.

Sem saco para ouvir-lhe a história, sentei-me no balcão, pedi um chope e uma empada, cardápio muito razoável para dez horas da manhã de um dia de calor senegalês. Logo chegou uma alma mais caridosa do que eu e se propôs a dividir com o pobre infeliz a razão de seu desamor.

Não parei para ouvir. Engoli meu chope com empada, mandei pendurar e saí andando. O que me comoveu foi a eterna oferta de instantâneas amizades de infância que tornam o bar o mais legítimo sindicato dos fracassados do amor.

     

Em tempo, "Sindicato dos Fracassados do Amor" é o nome de uma série de roteiros inéditos sobre histórias de bar, escritas em parceria com Edu Goldenberg, o do buteco (relacionado entre os favoritos deste blog).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pais e Filhos - Parte III

- Minha filha, você precisa ser mais tolerante com seu pai.

- Mãe, você não imagina o que eu passo todos os dias com ele, - disse a menina, já sem paciência.

- Imagino sim. Fui casada com ele vinte e dois anos.

- Viu? Nem você aguentou, - retorquiu ela, com ar conclusivo.

A mãe respirou fundo, como se tecesse melhor uma resposta óbvia. Queria que a filha entendesse, aos vinte e poucos, coisas que levamos anos para entender. E, normalmente, quando entendemos, já é tarde demais e não podemos desfazer, diluir, apagar, rasurar nosso passado, as mágoas com que lancetamos pessoas outrora tão queridas.

- Minha relação com ele de homem-mulher acabou, mas ainda somos amigos. Intolerância não leva ninguém a nada.

- Mas ele é muito chato, - insistiu, intolerantemente, a garota.

- E você está sendo tão intolerante quanto ele. Nessa altura da vida, não podemos esperar que ele mude tanto. Você é mais nova, tem a obrigação de ser melhor do que seus pais; assim o mundo caminha para frente.

- Você fala isso porque seu pai...

- ...ele é um pai muito melhor para você e para seus irmãos do que o pai dele foi para ele e para seu tio. E você acha que é fácil para ele passar por tudo o que ele está passando nos últimos anos?

- E você acha que é fácil para mim?

- Não, tenho certeza de que não é. Mas você devia se esforçar para ser no mínimo um pouco carinhosa com ele. Ele já não tem muito tempo pela frente, e seria muito civilizado da sua parte melhorar os poucos anos que lhe restam.

- Ele é um grosso, frustrado, incompetente...

- Será que você se julga com a mesma severidade com que o julga?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sobre limites

["O mundo passa por mim todos os dias / Mas eu passo pelo mundo uma vez" ("O mundo é assim", de Oswaldo dos Santos, o Alvaiade (1913-1981)]

Não serei eu o advogado de coisas pequenas, nem de grandes causas perdidas. Não defendo prazeres comezinhos nem dependem de feitos grandiosos os meus prazeres vitais. Mas não digo que já não fui assim.

Já fui daqueles que sentam na calçada para beber cerveja nem tão gelada assim com amigos nem tão amigos assim. Já virei noites alimentando chiqueiros com minhas pérolas poucas. Também já me vesti de dourado achando que a fantasia faz o carnaval. Orgias nababescas vazias de seres humanos, luxo e ópio.

Antes de tudo, gosto de conforto. Conforto e delicadeza, seja no alto do morro ou no fundo de um riquíssimo poço, seja lá ou seja aqui, seja num bingo em Madureira ou no El Tigre. Delicadeza e conforto estão em olhos e almas, mais do que em mapas e carteiras.

Gosto de prazeres intensos, de pessoas intensas, que dominem até mesmo a ciência de se fazer absolutamente nada com toda a intensidade do mundo.

Gosto do muro dos limites, para que eu ande ora de cada lado dele, alternadamente. De que valeriam as estradas sem um limite de velocidade que eu possa, e deva, romper? E de que valeriam também meus limites se eu não souber extrair prazer de respeitá-los?

E, sendo assim, que me dirá o contrário?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Pais e Filhos - Parte II

- Minha filha, você não deveria namorar esse rapaz.

- Por que, pai? Eu estou apaixonada por ele. Sou maior de idade, vacinada, ele é um cara legal, você conhece a família dele. Não vejo problema nenhum em namorá-lo.

- Aí reside o problema. Paixões e ausências de problemas não combinam, minha filha. Calmaria é uma ótima notícia para marinheiros e péssima para amantes.

Ela sabia que seu pai tinha razão, mas detestava aquele tom de sábio da montanha e suas frases de efeito.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Jonas e sua namorada imaginária

Jonas arrumou uma namorada imaginária.

De tanto imaginar como teriam sido seus amores fracassados se tivessem dado certo, partiu de vez para o mundo da imaginação e decidiu tentar ser feliz. Na primeira hora de conversa com uma pretendente - assaz no bar que ele frequentava, no Leblon - ele já imaginava como ela seria como namorada. Uma hora e meia, como esposa. No final da noite, desiludia-se com aquela que ele julgava que não seria uma boa mãe para seus filhos. Que boa mãe ficaria até tão tarde num bar?

Com seu gênio forte e suas fracas convicções, sua carência profunda, seu medo de ser rejeitado e de ficar sozinho, ele adormeceu depois de chegar em casa, ainda vestindo os sapatos. A noite que lhe levara embora a bebedeira e lhe trouxera a ressaca também deixou-lhe de presente ideias mirabolantes.

Engoliu café e um pedaço de bolo seco, foi ao supermercado - comprou bombons, um bom vinho - melhor levar dois, pensou - alguns aperitivos, na volta passou pela floricultura e encomendou um ramalhete enorme de flores do campo. Sequer reparou no olhar torto da balconista quando ele assinou: Com carinho, Tua Ivone. E mandou entregar.

Com a alma muito mais leve, partiu para o barbeiro, onde cortou o cabelo, fez a barba, massageou os pés. Quando chegou em casa, cruzou com o entregador da floricultura. 

- Eu mesmo recebo, são para mim, - e enfiou, sorridente, cinco reais no bolso do rapaz.

Os amigos logo notaram a transformação. Que milagres essa mulher estava operando com Jonas? Definitivamente não era mais o mesmo. Começou a desfilar com roupas novas, alinhadas, elegantes, trocou o leite de colônia por um Paco Rabani, as olheiras sumiram-lhe do rosto e um insuportável sorrisinho de felicidade nasceu-lhe entre os lábios.

Outro dia, voltando da praia, encontrei-o no bar. Nem eram dez da manhã e o infeliz já tinha enxugado meia garrafa de Fogo Paulista.

- Ô, meu filho, o que houve contigo?

- Tô mal...

- Deixa a sua mulher te ver aqui.

- Aquela puta morreu para mim. Peguei ela com outro.

Depois de constatar que a situação estava mais feia do que a comissão de frente da caixa de Pandora*, decidi cortar a conversa, antes que o chamado do bar me fizesse sentar ali com ele.

O homem, quando nasce para corno, não há imaginação que dê jeito.

* Crédito: Jansen Raveira pela expressão.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Paradoxo do Hedonismo

- Quer arrumar uma namorada linda, carinhosa, et cetera, perfeita?
- Como é uma namorada et cetera?
- Você entendeu. Quer ou não quer?
- Não, obrigado.

Silêncio.

- Se você não disser que quer, não posso concluir meu raciocínio.
- Mas eu não quero.
- É linguagem figurada.
- Eu já tenho namorada.

Silêncio. Algúem começa a ficar irritado.

- Tá, vamos supor que eu não tivesse namorada e que eu estivesse desesperado para namorar a tal et cetera. E aí?
- Ah, bem. E aí que você não conseguiria achar ninguém que lhe satisfizesse.
- E a et cetera?
- Não era ninguém específico. Era só para descrever uma pessoa bacana.
- Ahhhhh. E aonde você quer chegar? - cada vez mais incrédulo no rumo insólito da conversa.

- Quero dizer que quanto mais você procura, mais difícil fica você encontrar. Vou tentar enunciar esse postulado de forma diferente: "quanto mais avidez há na busca do prazer, mais fugidia se torna sua realização."

Ambos pensativos.

- Em que borracharia você ouviu isso? - foi a última das provocações. Mas que depois ficou pensando no assunto, ah, isso ficou.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Estandarte da Agonia

Pegou a garrafa depois o gelo e o copo. Serviu uma dose apressada e voltou para o quarto. Tirou de cima da mesinha de cabeceira as bulas de remédios, as anotações cercadas de garatujas e os tocos de cigarro - tudo já sem sombra da importância que tiveram. Abriu a cortina depois fechou-a um pouco. Viu que chovia. Recolheu as roupas espalhadas e os lençóis, enfurnou tudo num cesto no banheiro e voltou para a sala. Arrumando seu quarto, arrumava sua alma. Pegou o violão e não teve coragem de tocar. Sentou-se na sala escura e ficou em silêncio. 

Apenas o gelo estalava naquela noite quente de verão.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Pais e Filhos - Parte I

Contou-me uma querida amiga que decidira, sem sofrimento, furar as orelhas de sua filha ainda na maternidade. As suas próprias orelhas foram perfuradas com um brinco somente aos oito anos.

"E doeu?" - eu perguntei.

"Deve ter doído," - ela me confidenciou - "pelo tanto que meu pai chorava, deve ter doído muito."