terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma improvável declaração de amor

Nunca achei que sentiria saudades do inferno.

Não vivi durante ditaduras mas sei o que é exílio. Um exílio autoimposto, uma fuga desesperada e geográfica de um sentimento perseguidor implacável e desconhecido. Não sabia do que fugia quando saí do Rio, anos atrás, e ainda não sei.

Contudo, no inferno do exílio paulistano, coube-me a boa sorte de viver. Peixes afoitos pelo raro oxigênio, vagando perdidos pelos rios Tietê ou Maracanã, conheci outros como eu. São Paulo me lembra muita coisa.

O vento frio da Avenida Paulista num vazio fim de tarde de sábado; cervejas pós-rugby com Carol e Bruna e Paulette; porres e conversas e tomjobim e sughettos intermináveis de prazer e saudade com Ledusha, que entre tantas coisas me ensinou a ouvir Sinatra; estar sozinho, absolutamente sozinho; projetos bizarros e infactíveis com o orgulho em pessoa e boas e novas amizades; climas e textos e cafés com Thaisa na Augusta; caminhadas na madrugada e delírios e cervejas com Gabi; amigos de infância que se tornaram adultos perdidos no tempo; filmes, assisti-los e fazê-los, com Thomas que caiu de tão longe na Vila Madalena; cantinas italianas; paixões irrealizáveis no passado e no presente e também no futuro; o cheiro inequívoco da casa da minha mãe; esperas prolongadas no saguão de Congonhas; o cebolão, minha irmã e as saudades do meu irmão, que ora se invertem.

Em São Paulo me fiz roteirista e tradutor, e resgatei o poeta que houve em mim. Nunca achei que sentiria saudades de São Paulo.