terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Morre o verão

Morre o verão em púrpuras e dourados e vermelhos
das folhas que caem na floresta
e as nuvens do poente morrem
no sangue que lhes resta.

Nas praças públicas que se esvaziam,
os últimos passantes detêm o passo
para erguerem-se os olhos e seguirem
o vôo dos últimos pássaros.

O coração fica órfão. Logo
tamborila a chuva fria.
"Consertou seu casaco pro inverno,
guardou batatas sabendo que viria?


(Haim Nahman Bialik*, "Summer is Dying" - Tradução de Rafael Leal)


Haim Nahman Bialik (1873-1934) foi poeta e escritor, um dos mais aclamados de Israel. "O poeta da Nação" escreveu centenas de poemas que refletem, principalmente, a angústia do povo judeu no exílio.

sábado, 6 de dezembro de 2008

"Não sou tua"

Não sou tua, em ti não me perdia,
nem me perco, embora eu fique a desejar
perdida como uma vela ao meio-dia,
perdida como neve em alto mar.

Tu me amas, e eu fico a te achar
Um espírito de beleza e lucidez,
Mas eu sou eu, e eu fico a desejar
perder-me como a luz se perde na luz.

Mergulha-me no puro amor -- a extinção
de meus sentidos, deixa-me surda e cega,
Arrastada pelo teu amor, um furacão,
Uma vela tremulando no vento.

(Sara Teasdale*, "I am not yours" - Tradução de Rafael Leal)

(Gustav Klimt, "O Beijo", 1907, acervo da Galeria Austríaca - Viena)


Sara Teasdale (1884-1933) foi uma poeta lírica americana. Dona de uma obra vencedora de prêmios importantes, como o Pulitzer e o prêmio da Sociedade Poética Americana, sua vida foi marcada por fortes desilusões amorosas e por uma frágil saúde. Dois anos após o suicídio de seu grande amor, também ela cometeu suicício, tomando uma overdose de remédios para dormir.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Crença

Ria, ria mesmo de meus sonhos!
O que sonho, real um dia vai ser!
Ria da minha crença no ser humano
da crença que tenho em você.

Ainda exige liberdade a minha alma
que não se troca por um bezerro de ouro
Porque eu ainda acredito no homem
e em sua alma de força e destemor.

E no futuro, em que ainda acredito
Embora distante, sei que virá
quando as nações todas se abençoem
Finalmente o mundo a paz preencherá.


(Shaul Tchernichovski, "Creed" - Tradução: Rafael Leal)




Shaul Tchernichovski (1875-1943) é o príncipe dos poetas hebraicos. Nascido na Rússia czarista, além de grande poeta, Shaul foi médico e tradutor para o Hebraico de vários autores importantes, como Shakespeare, Molière, Goethe, Byron e Sófocles.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma improvável declaração de amor

Nunca achei que sentiria saudades do inferno.

Não vivi durante ditaduras mas sei o que é exílio. Um exílio autoimposto, uma fuga desesperada e geográfica de um sentimento perseguidor implacável e desconhecido. Não sabia do que fugia quando saí do Rio, anos atrás, e ainda não sei.

Contudo, no inferno do exílio paulistano, coube-me a boa sorte de viver. Peixes afoitos pelo raro oxigênio, vagando perdidos pelos rios Tietê ou Maracanã, conheci outros como eu. São Paulo me lembra muita coisa.

O vento frio da Avenida Paulista num vazio fim de tarde de sábado; cervejas pós-rugby com Carol e Bruna e Paulette; porres e conversas e tomjobim e sughettos intermináveis de prazer e saudade com Ledusha, que entre tantas coisas me ensinou a ouvir Sinatra; estar sozinho, absolutamente sozinho; projetos bizarros e infactíveis com o orgulho em pessoa e boas e novas amizades; climas e textos e cafés com Thaisa na Augusta; caminhadas na madrugada e delírios e cervejas com Gabi; amigos de infância que se tornaram adultos perdidos no tempo; filmes, assisti-los e fazê-los, com Thomas que caiu de tão longe na Vila Madalena; cantinas italianas; paixões irrealizáveis no passado e no presente e também no futuro; o cheiro inequívoco da casa da minha mãe; esperas prolongadas no saguão de Congonhas; o cebolão, minha irmã e as saudades do meu irmão, que ora se invertem.

Em São Paulo me fiz roteirista e tradutor, e resgatei o poeta que houve em mim. Nunca achei que sentiria saudades de São Paulo.