terça-feira, 11 de novembro de 2008

De passagem

Ontem eu a vi no aeroporto. Nem sei se a vi, nem sei se era ela. Os cabelos meio alourados, os quilos que ganhara nos últimos tempos espremidos numa meia-calça preta, os óculos que recusava-se a usar no lugar das falsas lentes azuis que corrigiam a miopia duodenária que ela tinha jamais me fariam reconhecê-la de pronto. Estava muito diferente de quando nos vimos pela derradeira vez. Considerando-se, é claro, que tratava-se de fato dela.

Não, eu não ia viajar. Esperava por alguém que a qualquer momento despontaria sorridente na sala de desembarque, pegaria sua bagagem na esteira, chegaria ao saguão e me levaria pela mão para um chope com novidades com pastéis de camarão. Ela sim parecia que viajaria, mas não naquela hora; percorreu deselegantemente toda a extensão do aeroporto até o balcão de uma companhia. Pegou uma passagem não sei para onde e não vi para onde foi.

Depois que passou por mim, precisei tirar a dúvida se era ela ou uma infeliz sósia. Puerilmente, inventei uma ligação urgente no celular e cruzei o saguão, para tentar vê-la de frente. Deve ter pensado na minha imaturidade. Tudo bem, além de não ligar a mínima para o que ela pensa, eu também reflito muito sobre essa imaturidade que me acompanha, felizmente, pelos anos.

Não a vi de perto, não sei se era ela, não consegui sentir saudades nem vazios, não tive doces lembranças nem saudades, nenhum desejo lupicínico de morte ou de dor me veio.

Apenas ocorreu-me que certos barcos são feitos para o fundo do mar - quando por sorte chegam ao mar - e se os ratos são os primeiros ao abandoná-los, é somente porque correm mais.