domingo, 16 de novembro de 2008

Desculpa

O que fazer quando se esquece do aniversário de uma amiga, e os compromissos e furacões e a vergonha te impedem de escrever ou ligar e assumir o atraso e o carinho?

E se essa amiga for de uma insustentável, imponderável - e por que não dizê-lo, impossível - leveza? E se for daquelas amigas que liga num sábado à tarde só para saber se você está bem ou feliz?

Há pessoas no meio dessa "selva oscura" que ainda buscam os amigos e são capazes de carinhos despretensiosos e desinteressados, que se comprazem em ouvir a voz do amigo em vez de buscá-la apenas em troca de um convite para uma festa, um ombro em que se possa chorar um monólogo ou de outros interesses banais.

Minhas agendas telefônicas estão cheias de gente assim - lembrar-me-ei deles na hora certa - e calha da irresponsabilidade afetiva magoar justamente uma pessoa a quem tanto quero bem.

Como pedir desculpas?

Sorte têm os escritores que podem fazê-lo com arte e delicadeza, que tanto faltam ao mundo lá fora.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

As cartas

"E as lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar dentro da alma: ninguém as vê cair dentro de mim." ("Versos Íntimos", Florbela Espanca)

É verdade, são estranhas as cartas dela. Mas não menos estranhas são as minhas caretas, os meus sentimentos, as cartas minhas. Comprei uma braçada de flores e também as flores me pareceram estranhas. Caminhei por uma rua estranha, cruzei com pessoas estranhas sorrindo sorrisos estranhos. No espelho do elevador, nada era mais estranho do que meu rosto. As lágrimas invisíveis traçavam-me a pele e deixavam a sensação de que, como o choro contido, é estranho o amanhã.

De passagem

Ontem eu a vi no aeroporto. Nem sei se a vi, nem sei se era ela. Os cabelos meio alourados, os quilos que ganhara nos últimos tempos espremidos numa meia-calça preta, os óculos que recusava-se a usar no lugar das falsas lentes azuis que corrigiam a miopia duodenária que ela tinha jamais me fariam reconhecê-la de pronto. Estava muito diferente de quando nos vimos pela derradeira vez. Considerando-se, é claro, que tratava-se de fato dela.

Não, eu não ia viajar. Esperava por alguém que a qualquer momento despontaria sorridente na sala de desembarque, pegaria sua bagagem na esteira, chegaria ao saguão e me levaria pela mão para um chope com novidades com pastéis de camarão. Ela sim parecia que viajaria, mas não naquela hora; percorreu deselegantemente toda a extensão do aeroporto até o balcão de uma companhia. Pegou uma passagem não sei para onde e não vi para onde foi.

Depois que passou por mim, precisei tirar a dúvida se era ela ou uma infeliz sósia. Puerilmente, inventei uma ligação urgente no celular e cruzei o saguão, para tentar vê-la de frente. Deve ter pensado na minha imaturidade. Tudo bem, além de não ligar a mínima para o que ela pensa, eu também reflito muito sobre essa imaturidade que me acompanha, felizmente, pelos anos.

Não a vi de perto, não sei se era ela, não consegui sentir saudades nem vazios, não tive doces lembranças nem saudades, nenhum desejo lupicínico de morte ou de dor me veio.

Apenas ocorreu-me que certos barcos são feitos para o fundo do mar - quando por sorte chegam ao mar - e se os ratos são os primeiros ao abandoná-los, é somente porque correm mais.