terça-feira, 12 de agosto de 2008

Insensatez

"Põe em ordem a tua casa" (2 Reis 20)


Era a sexta vez que ela ligava naquela noite.

O telefone fazia vibrar toda a mesa, onde ele trabalhava incessantemente, lutando contra o sono e o desespero e a tendinite que teimava em voltar. A garrafa de uísque lhe olhava, a quilômetros de distância, do móvel da sala.

O mais provável é que ela quisesse chamá-lo para sair, beberiam, dariam gargalhadas, perderiam-se, e, muito provavelmente, acabariam enrolados nos lençóis de algum motel. Química inevitável, matemática sombria e magnética, a que os atraía.

Não podia dar-se o luxo de abandonar uma noite de trabalho... os produtores cobravam este novo roteiro - mais uma história de amores impossíveis? - o prazo se esgotava, mas quanto mais ele ficava distante de seus amores possíveis, mais impossível se tornava sua escrita, mais árduo era se colocar no papel, na tela do computador e do cinema.

Talvez ela só quisesse ouvir sua voz grave antes de dormir, talvez quisesse desabafar, declarar um amor incontido, contar uma piada ótima que ouvira ou transmitir grave e urgente notícia. Talvez fosse pura arrogância não querer atendê-la ("que me escreva um e-mail!"). Quando estivesse com ela, que estivesse inteiro, e não com uma metade pendurada em outros assuntos.

Voltou ao trabalho. Escrevia sobre um homem de coração insensato, que se envolvia com duas mulheres e não era capaz de estar por inteiro em momento algum. Estava com uma delas, pensava na outra. Julgava-se capaz de dar conta de tudo, acreditava que um dia a situação se resolveria, e poderia optar, com propriedade, por uma ou outra.


Ao contrário de seu personagem, ele sempre soube, como poucos, conter a própria ausência.

E o telefone tocou pela sétima vez.