terça-feira, 26 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 2

"Cobra é um animal careca com ondulação permanente." (Apparício Torelly, o Barão de Itararé)


Tudo terminou num dia ensolarado de outubro. O verão se preparava para lentamente engolir os cariocas e nem tudo termina em dias cinzentos no Leblon. Passava pouco das três da tarde e o sol ainda o castigava; de pé na calçada, aguardava um táxi com uma ligeira bagagem a seus pés.

Tantas vezes esperara táxis naquela rua, mas nunca sob sol a pino. Era sempre o meio da madrugada ou ainda uma manhã tímida quando voltava para casa.

Alguns meses antes, chegara àquele apartamento convidado por um amigo para uma festa, conhecera a dona, viveram noites quentes e dias quentes, que começaram a se repetir e se repetir e se repetir - embora nunca fossem iguais.

Entre os tardes das noites e os implacáveis trabalhos dos dias seguintes, surgiram no guarda-roupas dela a primeira muda de roupa e cuecas limpas e a segunda muda de roupa e a camisa social e um cinto e seu sapato dormiu ao lado da cama e das pantufas amarelas dela.

Aos poucos, sem perceber, ele foi tragado por uma roda viva que não compreendia, mas que também não buscava compreender. Gostava disso. Passou a gostar do jazz que ela ouvia e da vodca favorita dela. Comprava-lhe flores de vez em quando.


Quando o táxi chegou, ele sentiu que retomava o controle de sua vida. Mas deixava para trás justamente os momentos em que fôra mais feliz.