terça-feira, 19 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 1

"Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!" (Machado de Assis, "Um Apólogo")


Contam que uma amiga da prima da amiga de um conhecido do... como era mesmo o nome dele?, assim, com uns dez níveis de distância (a quantos níveis de distância, então, estaria eu do Obama?, sempre penso nesses casos), enfim, que essa tal moça deu de criar uma jibóia em casa, tal qual um bichinho de estimação.

Não sei bem se ela levava a cobra para passear, dada a dificuldade de se prender uma coleira - por total ausência de pescoço - ou se levava ao pet shop - certamente não para tosar tampouco para cortar as unhas - ou se comprava xampus especiais ou penduricalhos ou sapatinhos.

Mas é fato que comprava ratinhos e passarinhos e outros bichinhos para saciar o lendário apetite da cobra. Voltando da academia, passava no hortifruti, comprava uma saladinha para o jantar, passava no pet shop, comprava um ratinho para o jantar. E dormiam satisfeitas, as duas, sobre a cama de casal no apartamento do Leblon.

Ouvi dizer que o rosto da empregada ficou pálido, lívido, ao dar de cara com a enorme cobra, dormindo placidamente, enrolada aos pés da patroa, dormindo placidamente.

De uns tempos para cá, a cobra passou a recusar os ratinhos. Acostumados a morrerem esmagados e digeridos, passaram a morrer de pânico - ou da dor da rejeição - no aquário da cobra. (Sim, ela tinha um aquário, embora preferisse o edredom da dona.) Não comia mais ratinhos, ignorava os suculentos passarinhos que a dona lhe trazia aos fins de semana. Pela expressão plácida da cobra, ninguém soube dizer se tratava-se de depressão ou se a mania de dieta de sua mãe a havia contaminado.

Mas estranho mesmo foi quando a cobra passou a dormir esticadinha...

Seu analista (da dona, não da cobra: analista de cobra é demais!) recomendou que levasse a cobra a um profissional qualificado: um encantador de serpentes, ou, muito mais fácil de se encontrar no Leblon, um veterinário.

A sentença não demorou mais do que cinco minutos de anamnese: seria preciso sacrificar Rita. (Sim, a cobra se chamava Rita; uma língua maldosa me disse que era homenagem à Gilda). O diagnóstico era simples: o jejum era para se poupar, se preparar para digerir algo muito grande. E o fato de dormir esticadinha, ao lado do algo muito grande que ela queria digerir, era só uma forma de medir.

Uma cobra tratada com muito carinho, com os ratinhos mais gordos do pet shop da Dias Ferreira, que dormia e acordava no edredom daquele apartamento - coisa que muito homem quis e não pôde - preparava-se ofidiamente para, digamos, deglutir, engolir, papar sua dona e mantenedora. Não faz mais de uma semana, me disseram, deram um fim na cobra.



E arrematou minha amiga, que me contou essa história:

- Também eu tenho feito como a cobra. Só medindo, só medindo...

("A Tentação de Adão e Eva", de William Blake, 1808
- Acervo do Museu de Belas Artes de Boston, EUA)