terça-feira, 26 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 2

"Cobra é um animal careca com ondulação permanente." (Apparício Torelly, o Barão de Itararé)


Tudo terminou num dia ensolarado de outubro. O verão se preparava para lentamente engolir os cariocas e nem tudo termina em dias cinzentos no Leblon. Passava pouco das três da tarde e o sol ainda o castigava; de pé na calçada, aguardava um táxi com uma ligeira bagagem a seus pés.

Tantas vezes esperara táxis naquela rua, mas nunca sob sol a pino. Era sempre o meio da madrugada ou ainda uma manhã tímida quando voltava para casa.

Alguns meses antes, chegara àquele apartamento convidado por um amigo para uma festa, conhecera a dona, viveram noites quentes e dias quentes, que começaram a se repetir e se repetir e se repetir - embora nunca fossem iguais.

Entre os tardes das noites e os implacáveis trabalhos dos dias seguintes, surgiram no guarda-roupas dela a primeira muda de roupa e cuecas limpas e a segunda muda de roupa e a camisa social e um cinto e seu sapato dormiu ao lado da cama e das pantufas amarelas dela.

Aos poucos, sem perceber, ele foi tragado por uma roda viva que não compreendia, mas que também não buscava compreender. Gostava disso. Passou a gostar do jazz que ela ouvia e da vodca favorita dela. Comprava-lhe flores de vez em quando.


Quando o táxi chegou, ele sentiu que retomava o controle de sua vida. Mas deixava para trás justamente os momentos em que fôra mais feliz.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 1

"Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!" (Machado de Assis, "Um Apólogo")


Contam que uma amiga da prima da amiga de um conhecido do... como era mesmo o nome dele?, assim, com uns dez níveis de distância (a quantos níveis de distância, então, estaria eu do Obama?, sempre penso nesses casos), enfim, que essa tal moça deu de criar uma jibóia em casa, tal qual um bichinho de estimação.

Não sei bem se ela levava a cobra para passear, dada a dificuldade de se prender uma coleira - por total ausência de pescoço - ou se levava ao pet shop - certamente não para tosar tampouco para cortar as unhas - ou se comprava xampus especiais ou penduricalhos ou sapatinhos.

Mas é fato que comprava ratinhos e passarinhos e outros bichinhos para saciar o lendário apetite da cobra. Voltando da academia, passava no hortifruti, comprava uma saladinha para o jantar, passava no pet shop, comprava um ratinho para o jantar. E dormiam satisfeitas, as duas, sobre a cama de casal no apartamento do Leblon.

Ouvi dizer que o rosto da empregada ficou pálido, lívido, ao dar de cara com a enorme cobra, dormindo placidamente, enrolada aos pés da patroa, dormindo placidamente.

De uns tempos para cá, a cobra passou a recusar os ratinhos. Acostumados a morrerem esmagados e digeridos, passaram a morrer de pânico - ou da dor da rejeição - no aquário da cobra. (Sim, ela tinha um aquário, embora preferisse o edredom da dona.) Não comia mais ratinhos, ignorava os suculentos passarinhos que a dona lhe trazia aos fins de semana. Pela expressão plácida da cobra, ninguém soube dizer se tratava-se de depressão ou se a mania de dieta de sua mãe a havia contaminado.

Mas estranho mesmo foi quando a cobra passou a dormir esticadinha...

Seu analista (da dona, não da cobra: analista de cobra é demais!) recomendou que levasse a cobra a um profissional qualificado: um encantador de serpentes, ou, muito mais fácil de se encontrar no Leblon, um veterinário.

A sentença não demorou mais do que cinco minutos de anamnese: seria preciso sacrificar Rita. (Sim, a cobra se chamava Rita; uma língua maldosa me disse que era homenagem à Gilda). O diagnóstico era simples: o jejum era para se poupar, se preparar para digerir algo muito grande. E o fato de dormir esticadinha, ao lado do algo muito grande que ela queria digerir, era só uma forma de medir.

Uma cobra tratada com muito carinho, com os ratinhos mais gordos do pet shop da Dias Ferreira, que dormia e acordava no edredom daquele apartamento - coisa que muito homem quis e não pôde - preparava-se ofidiamente para, digamos, deglutir, engolir, papar sua dona e mantenedora. Não faz mais de uma semana, me disseram, deram um fim na cobra.



E arrematou minha amiga, que me contou essa história:

- Também eu tenho feito como a cobra. Só medindo, só medindo...

("A Tentação de Adão e Eva", de William Blake, 1808
- Acervo do Museu de Belas Artes de Boston, EUA)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Para Allison Cunningham, de seu guri

Pelas longas noites que passou desperta
tendo tão pouco em retribuição
Pelo seu cafuné tão confortável
em que eu viajava pela imaginação
Por todos os livrinhos que você me leu
E por me confortar quando doeu

Por toda sua compaixão, todo o seu tédio,
Nos dias tristes e nos dias de bonança
Minha segunda mamãe, primeira esposa
O anjo da minha vida de criança
pequena e doente, cresci e revigorei
Toma, babá, esse livro para você!

Tomara, D´us, tomara que todos que leiam
possam encontrar uma querida babá ou enfermeira
e toda criança que gostar dessas rimas
aconchegada no sofá do lado da lareira
que possa ouvir como alguém que te diz
o que fez minha infância tão feliz!


(Robert Louis Stevenson, in: A Child's Garden of Verses)
(Tradução: Rafael Leal)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Palavra

A palavra só faz sentido quando dá forma vibratória ao ar com a intenção de tangir e encantar. De fascinar amantes e torná-los ainda mais; de celebrar a paz que sepulta o medo; de florar o amor onde haja ciúme e terra arrasada. A palavra também é poderosa peçonha, que escorre pelas fendas da desinformação e atinge os corações inseguros, cheios de certezas. A palavra é a seta definitiva pronta para matar pelo amor ou para fazer morrer de amor o amante descuidado.
A palavra é uma pérola parcialmente defeituosa; impressiona pelo lado certo, da beleza ostentada e brilhante, enoja e se revela a vil digestão quando se observa o outro lado, o lado da crueza da realidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Insensatez

"Põe em ordem a tua casa" (2 Reis 20)


Era a sexta vez que ela ligava naquela noite.

O telefone fazia vibrar toda a mesa, onde ele trabalhava incessantemente, lutando contra o sono e o desespero e a tendinite que teimava em voltar. A garrafa de uísque lhe olhava, a quilômetros de distância, do móvel da sala.

O mais provável é que ela quisesse chamá-lo para sair, beberiam, dariam gargalhadas, perderiam-se, e, muito provavelmente, acabariam enrolados nos lençóis de algum motel. Química inevitável, matemática sombria e magnética, a que os atraía.

Não podia dar-se o luxo de abandonar uma noite de trabalho... os produtores cobravam este novo roteiro - mais uma história de amores impossíveis? - o prazo se esgotava, mas quanto mais ele ficava distante de seus amores possíveis, mais impossível se tornava sua escrita, mais árduo era se colocar no papel, na tela do computador e do cinema.

Talvez ela só quisesse ouvir sua voz grave antes de dormir, talvez quisesse desabafar, declarar um amor incontido, contar uma piada ótima que ouvira ou transmitir grave e urgente notícia. Talvez fosse pura arrogância não querer atendê-la ("que me escreva um e-mail!"). Quando estivesse com ela, que estivesse inteiro, e não com uma metade pendurada em outros assuntos.

Voltou ao trabalho. Escrevia sobre um homem de coração insensato, que se envolvia com duas mulheres e não era capaz de estar por inteiro em momento algum. Estava com uma delas, pensava na outra. Julgava-se capaz de dar conta de tudo, acreditava que um dia a situação se resolveria, e poderia optar, com propriedade, por uma ou outra.


Ao contrário de seu personagem, ele sempre soube, como poucos, conter a própria ausência.

E o telefone tocou pela sétima vez.