segunda-feira, 7 de abril de 2008

Outra cena perdida

Apartamento ainda com pouca mobília. Noite quente do verão carioca. Ele e ela deitados no chão da sala, exaustos e suados.

- Qual o seu maior desejo? - ela perguntou.
- Te amar sem limites.

Pausa.

- E o seu? - ele devolveu a pergunta, com um sorriso quase indecente.
- Que você consiga realizar o seu.

A música mais dolorida de Chico Buarque

Em duas versões, a primeira delas, de 1975, censurada no Brasil.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


***

E, a segunda versão, de 1978.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim


***

Um comentário final: haverá quem ache não ser preciso navegar, apesar de tantas e tantas léguas?

domingo, 6 de abril de 2008

Num futuro hipotético

["A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." Vinícius de Moraes, poeta, músico e diplomata.]


Rio de Janeiro. Algum lugar com vista para Baía de Guanabara. Venta bastante.

- Eu não acho justo a gente ter que se separar. Eu levei minha vida inteira para te encontrar, e quando eu te encontro, vem a vida e te leva de mim.
- Mas você não tem que se preocupar. A gente não precisa se separar. Nem sofrer com isso por enquanto. Nem sei ainda se eu vou, nem é certo se vão me chamar. E mesmo que chamarem, é uma questão de tempo até ficarmos juntos novamente.

Silêncio. Ele continua:

- Você é jovem, linda, tem muito o que viver. E muito ainda o que viver ao meu lado. Antes e depois. Presente e futuro. O pior que pode acontecer é a vida nos obrigar a fazer um intervalinho. Eu sou teu e nada vai mudar isso. E você será minha sempre que quiser. Histórias de amores imortais a gente conhece aos montes. Romeu e Julieta... não, muito trágico. Hmmm, Abelardo e Heloísa... bem, tambem não é um bom exemplo, eles morrem no final. Dexovê...
- Você fica lindinho fazendo esses monólogos.

Beijam-se.

- Meu amor, nossa história não é sobre despedida. Nossa história é sobre eternidade. É lifetime. É jornada. Só abrimos mão dela se quisermos. E eu não quero. A gente só precisa pensar de que forma seremos felizes, isso é inevitável. Hoje a gente vive num mundo sem distâncias. No tempo da saudade, acho que a gente nem tinha nascido. Você certamente não.
- Até parece que você é muito mais velho.
- Muito não, mas um pouco considerável. Olha só, para tudo nessa vida dá-se um jeito. Outros casais tão apaixonados como nós já passaram por isso, sobreviveram e continuam cada vez mais felizes, e juntos. Ou seja, a gente vai dar um jeito. Se é que será preciso. Há tantas coisas...
- Me dá um beijo?

Beijam-se novamente.



Num grande plano geral, os namorados, profundamente integrados à paisagem estonteante, sabem que a beleza tamanha à sua frente e a felicidade tamanha que vivem não existe à toa.