quinta-feira, 13 de março de 2008

Bilhete só de ida

O tempo maratonista incansável faz evanescer memórias lembranças de pedaços felizes inesquecíveis da vida não faço questão de tirar guardar fotos retratos o que não guardo na cabeça é melhor que não ficasse guardado basta lembrar que fui feliz quando onde com quem não importa se eu não lembrar a frente guardo na fronte nas indeléveis rugas da fronte marcas de tudo que fui sou do que passei vivi sem sentimentalismo nostalgia saudade tudo passa evanesce difícil é lidar com isso.

terça-feira, 11 de março de 2008

Coisas que não farei (Nostalgias)

Nunca irei à Bulgária, tive panfleto & convite

Igual à Albânia, fui convidado ano passado, secretamente por estelionatários
ou alcóolatras em recuperação
Ou poetas iluminados das terras ancestrais dos Portões de Hades
Também não visitarei Lhasa viverei em Hilton ou com a família de Ngawang Gelek
nem regressarei a Potala
Também não voltarei a Khasi "a cidade continuamente habitada mais velha do mundo"
nem banharei no Ganges nem me sentarei em Manikarnika ghat com Peter,
nem visitarei novamente Lord Jagganath em Puri, nunca voltarei a Bibhum
nem anotarei as lendas de Khaki B Baba
Também não irei a festivais de música em Madras com Philip
Nem tampouco tomarei Chai com Sunil & os outros poetas da lanchonete,
Nem amarrarei um véu em minha cabeça em uma boca de fumo de ópio em Chinatown,
nem passarei pelo Moslem Hotel, sua cobertura Tinsmith Street Choudui Chowh Nimtallah
lugar perfeito para fumar ganja em Hooghly
Também não irei às alamedas de Achmed's Fez, nunca mais beberei chá de hortelã no Soco
Chico nem visitarei Paul B. em Tângier
Nem verei a Esfinge no deserto no pôr-do-sol ou no nascer do sol, manhã e tarde
no deserto
A antiga Beirute destruída, Babilônia & Ur tristemente bombardeadas, os mistérios soturnos
da Síria e de todos os desertos Árabes & Sauditas, o povo alegre do Iêmen,
O velho Afeganistão de tribos e ópio, Tibet - os templos do Baluchistão
Nem verei Shangha mais uma vez, para não falar de Dunhuang
Nem escalarei os 3 lances da escadaria do prédio da Rua 12 E.,
Nem irei à literária Argentina, nem verei meus parceiros de copo em São Paulo & nem viverei
um mês num flat nas praias do Rio com os meninos das favelas, nem o maravilhoso
Carnaval da Bahia
Não ficarei acordado sonhando com Bali, o festival de Adelaide é longe demais para comprar
novos incensos
Não verei as novas favelas de Jacarta, as misteriosas florestas de Bornéu & homens
e mulheres pintados
Nada mais de Sunset Boulevard, de Melrose Avenue nem do Oz em Ocean Way
Do velho primo Danny Leegant, lembranças da tia Edith em Santa Mônica
Nada mais de verões românticos com amantes, de dar aulas sobre Blake em Naropa,
sobre escrever Slogans, nova Poética moderna Americama, Williams
Kerouac Reznikoff Rakosi Corso Creely Orlovsky
Nunca visitarei B'nai Israel os túmulos de Buda, tia Rosa, Harry Meltzer e
tia Clara, meu pai Louis,
Não pessoalmente exceto numa urna de cinzas.


Allen Ginsberg, 1960´s

poema-testamento de Allen Ginsberg
escrito a 30 de março de 1997, cinco dias antes de sua morte
tradução Rafael Leal