quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pessoalidades

Algum supermercado vinte e quatro horas da zona sul do Rio de Janeiro e velho hábito de fazer compras de madrugada.

"Ei, que coincidência!"
"Sempre fiz compras a essa hora, você sabe."
"Tudo bem?"
"Tudo."

Algumas pessoas parecem incapazes de perceber a falta de vontade de prosseguir em uma conversa, expressa normalmente pelo semblante e pela seqüência de respostas monolíticas.

Sem saber como, ele foi parar com ela na cafeteria do supermercado. Era a primeira vez que ele a via desde a briga derradeira, há um par de anos. Pareceu-lhe que a balança começava a ganhar a eterna briga.

Ela falava compulsivamente:

"A minha mãe teve um furúnculo ano passado que não sarava nunca. Era só eu me distrair um pouco que lá estava ela, gritando e jogando pus para tudo quanto é lado. Acho que depois que papai morreu ela ficou muito sozinha."

Ela parecia esquecer que o pai havia morrido há quinze anos e que a mãe sempre fora sozinha. De tão chata, talvez.

"Aquele terreno em Guaratiba eu vendi. Ah, o imposto estava muito alto, e eu não ia construir mais aquela casinha. Abriu um hotel ali perto e quando eu quiser ir pra lá eu posso ir direto sem ter que ficar limpando casa, fazendo compras."

Às vezes, como que para retomar o fôlego, perguntava:

"Posso falar dessas coisas com você, não? Nós somos amigos!"

E prosseguia, cada vez mais pessoal:

"Depois que eu me separei de você, fiquei sozinha um tempo mas aí apareceu o André. No começo foi tudo ótimo, mas depois ele foi ficando ciumento também, igual a você, só que pior. Começou a mexer na minha agenda, abrir os meus emails. Se continuar assim eu vou entrar para um convento. Por que os homens tem mania de achar que precisam saber da minha vida? Eu não sei o que há comigo, só atraio homem ciumento, não consigo imaginar porquê."

"Talvez porque você seja uma puta," ele pensou sem dizer. "Aham," ele disse.