terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Morre o verão

Morre o verão em púrpuras e dourados e vermelhos
das folhas que caem na floresta
e as nuvens do poente morrem
no sangue que lhes resta.

Nas praças públicas que se esvaziam,
os últimos passantes detêm o passo
para erguerem-se os olhos e seguirem
o vôo dos últimos pássaros.

O coração fica órfão. Logo
tamborila a chuva fria.
"Consertou seu casaco pro inverno,
guardou batatas sabendo que viria?


(Haim Nahman Bialik*, "Summer is Dying" - Tradução de Rafael Leal)


Haim Nahman Bialik (1873-1934) foi poeta e escritor, um dos mais aclamados de Israel. "O poeta da Nação" escreveu centenas de poemas que refletem, principalmente, a angústia do povo judeu no exílio.

sábado, 6 de dezembro de 2008

"Não sou tua"

Não sou tua, em ti não me perdia,
nem me perco, embora eu fique a desejar
perdida como uma vela ao meio-dia,
perdida como neve em alto mar.

Tu me amas, e eu fico a te achar
Um espírito de beleza e lucidez,
Mas eu sou eu, e eu fico a desejar
perder-me como a luz se perde na luz.

Mergulha-me no puro amor -- a extinção
de meus sentidos, deixa-me surda e cega,
Arrastada pelo teu amor, um furacão,
Uma vela tremulando no vento.

(Sara Teasdale*, "I am not yours" - Tradução de Rafael Leal)

(Gustav Klimt, "O Beijo", 1907, acervo da Galeria Austríaca - Viena)


Sara Teasdale (1884-1933) foi uma poeta lírica americana. Dona de uma obra vencedora de prêmios importantes, como o Pulitzer e o prêmio da Sociedade Poética Americana, sua vida foi marcada por fortes desilusões amorosas e por uma frágil saúde. Dois anos após o suicídio de seu grande amor, também ela cometeu suicício, tomando uma overdose de remédios para dormir.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Crença

Ria, ria mesmo de meus sonhos!
O que sonho, real um dia vai ser!
Ria da minha crença no ser humano
da crença que tenho em você.

Ainda exige liberdade a minha alma
que não se troca por um bezerro de ouro
Porque eu ainda acredito no homem
e em sua alma de força e destemor.

E no futuro, em que ainda acredito
Embora distante, sei que virá
quando as nações todas se abençoem
Finalmente o mundo a paz preencherá.


(Shaul Tchernichovski, "Creed" - Tradução: Rafael Leal)




Shaul Tchernichovski (1875-1943) é o príncipe dos poetas hebraicos. Nascido na Rússia czarista, além de grande poeta, Shaul foi médico e tradutor para o Hebraico de vários autores importantes, como Shakespeare, Molière, Goethe, Byron e Sófocles.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma improvável declaração de amor

Nunca achei que sentiria saudades do inferno.

Não vivi durante ditaduras mas sei o que é exílio. Um exílio autoimposto, uma fuga desesperada e geográfica de um sentimento perseguidor implacável e desconhecido. Não sabia do que fugia quando saí do Rio, anos atrás, e ainda não sei.

Contudo, no inferno do exílio paulistano, coube-me a boa sorte de viver. Peixes afoitos pelo raro oxigênio, vagando perdidos pelos rios Tietê ou Maracanã, conheci outros como eu. São Paulo me lembra muita coisa.

O vento frio da Avenida Paulista num vazio fim de tarde de sábado; cervejas pós-rugby com Carol e Bruna e Paulette; porres e conversas e tomjobim e sughettos intermináveis de prazer e saudade com Ledusha, que entre tantas coisas me ensinou a ouvir Sinatra; estar sozinho, absolutamente sozinho; projetos bizarros e infactíveis com o orgulho em pessoa e boas e novas amizades; climas e textos e cafés com Thaisa na Augusta; caminhadas na madrugada e delírios e cervejas com Gabi; amigos de infância que se tornaram adultos perdidos no tempo; filmes, assisti-los e fazê-los, com Thomas que caiu de tão longe na Vila Madalena; cantinas italianas; paixões irrealizáveis no passado e no presente e também no futuro; o cheiro inequívoco da casa da minha mãe; esperas prolongadas no saguão de Congonhas; o cebolão, minha irmã e as saudades do meu irmão, que ora se invertem.

Em São Paulo me fiz roteirista e tradutor, e resgatei o poeta que houve em mim. Nunca achei que sentiria saudades de São Paulo.

domingo, 16 de novembro de 2008

Desculpa

O que fazer quando se esquece do aniversário de uma amiga, e os compromissos e furacões e a vergonha te impedem de escrever ou ligar e assumir o atraso e o carinho?

E se essa amiga for de uma insustentável, imponderável - e por que não dizê-lo, impossível - leveza? E se for daquelas amigas que liga num sábado à tarde só para saber se você está bem ou feliz?

Há pessoas no meio dessa "selva oscura" que ainda buscam os amigos e são capazes de carinhos despretensiosos e desinteressados, que se comprazem em ouvir a voz do amigo em vez de buscá-la apenas em troca de um convite para uma festa, um ombro em que se possa chorar um monólogo ou de outros interesses banais.

Minhas agendas telefônicas estão cheias de gente assim - lembrar-me-ei deles na hora certa - e calha da irresponsabilidade afetiva magoar justamente uma pessoa a quem tanto quero bem.

Como pedir desculpas?

Sorte têm os escritores que podem fazê-lo com arte e delicadeza, que tanto faltam ao mundo lá fora.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

As cartas

"E as lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar dentro da alma: ninguém as vê cair dentro de mim." ("Versos Íntimos", Florbela Espanca)

É verdade, são estranhas as cartas dela. Mas não menos estranhas são as minhas caretas, os meus sentimentos, as cartas minhas. Comprei uma braçada de flores e também as flores me pareceram estranhas. Caminhei por uma rua estranha, cruzei com pessoas estranhas sorrindo sorrisos estranhos. No espelho do elevador, nada era mais estranho do que meu rosto. As lágrimas invisíveis traçavam-me a pele e deixavam a sensação de que, como o choro contido, é estranho o amanhã.

De passagem

Ontem eu a vi no aeroporto. Nem sei se a vi, nem sei se era ela. Os cabelos meio alourados, os quilos que ganhara nos últimos tempos espremidos numa meia-calça preta, os óculos que recusava-se a usar no lugar das falsas lentes azuis que corrigiam a miopia duodenária que ela tinha jamais me fariam reconhecê-la de pronto. Estava muito diferente de quando nos vimos pela derradeira vez. Considerando-se, é claro, que tratava-se de fato dela.

Não, eu não ia viajar. Esperava por alguém que a qualquer momento despontaria sorridente na sala de desembarque, pegaria sua bagagem na esteira, chegaria ao saguão e me levaria pela mão para um chope com novidades com pastéis de camarão. Ela sim parecia que viajaria, mas não naquela hora; percorreu deselegantemente toda a extensão do aeroporto até o balcão de uma companhia. Pegou uma passagem não sei para onde e não vi para onde foi.

Depois que passou por mim, precisei tirar a dúvida se era ela ou uma infeliz sósia. Puerilmente, inventei uma ligação urgente no celular e cruzei o saguão, para tentar vê-la de frente. Deve ter pensado na minha imaturidade. Tudo bem, além de não ligar a mínima para o que ela pensa, eu também reflito muito sobre essa imaturidade que me acompanha, felizmente, pelos anos.

Não a vi de perto, não sei se era ela, não consegui sentir saudades nem vazios, não tive doces lembranças nem saudades, nenhum desejo lupicínico de morte ou de dor me veio.

Apenas ocorreu-me que certos barcos são feitos para o fundo do mar - quando por sorte chegam ao mar - e se os ratos são os primeiros ao abandoná-los, é somente porque correm mais.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Incursões poéticas pela adolescência - I

Cantava-me meu avô, e eu inda menino
numa velha cantiga sobre o mar
a história de um barquinho pequenino
que não saía não saía do lugar
passavam uma duas três quatro cinco seis
sete semanas
e o barquinho não saía não saía do lugar.

A cantiga que se gravou na minha alma,
que de tão chata me fazia ninar,
ele sempre cantava uma outra vez
e o barquinho não saía do lugar.

E hoje, bem depois, na cantiga sentida,
que me fazem falta o seu velho barquinho,
sua presença terna e seu carinho,
eu sinto que é a vez da minha vida
que não anda, não sai mais desse lugar.

("Naufrágio", escrito em 1999.)

("Noite Estrelada sobre o Ródano", Vincent Van Gogh, 1888 - Acervo Museé d´Orsay, Paris)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Do Amor

O amor, lindinha, é severo ofício. É labuta sob o sol, é sorriso nos lábios, a dureza da vida é a poesia do cotidiano. O amor é Tom ao piano. É o salário, é a guerra, é canário da terra. O amor é o suor nos lençóis, é o cargo dos michês, é um ano mais veloz que um mês. O amor é essência ferina, ouro, prata e platina. É o mais doce pensar, é terra firme e alto mar. É tudo o que a gente faz, é o naipe do ás. É apelidos idiotas de amantes, o amor é diamantes incrustados, é o acabamento que damos ao dia. O amor é o canto da cotovia. Ouve o que te digo como ouço o que me dizes: o amor é o ofício do ourives.

(A Grande Família, René Magritte, 1963)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 2

"Cobra é um animal careca com ondulação permanente." (Apparício Torelly, o Barão de Itararé)


Tudo terminou num dia ensolarado de outubro. O verão se preparava para lentamente engolir os cariocas e nem tudo termina em dias cinzentos no Leblon. Passava pouco das três da tarde e o sol ainda o castigava; de pé na calçada, aguardava um táxi com uma ligeira bagagem a seus pés.

Tantas vezes esperara táxis naquela rua, mas nunca sob sol a pino. Era sempre o meio da madrugada ou ainda uma manhã tímida quando voltava para casa.

Alguns meses antes, chegara àquele apartamento convidado por um amigo para uma festa, conhecera a dona, viveram noites quentes e dias quentes, que começaram a se repetir e se repetir e se repetir - embora nunca fossem iguais.

Entre os tardes das noites e os implacáveis trabalhos dos dias seguintes, surgiram no guarda-roupas dela a primeira muda de roupa e cuecas limpas e a segunda muda de roupa e a camisa social e um cinto e seu sapato dormiu ao lado da cama e das pantufas amarelas dela.

Aos poucos, sem perceber, ele foi tragado por uma roda viva que não compreendia, mas que também não buscava compreender. Gostava disso. Passou a gostar do jazz que ela ouvia e da vodca favorita dela. Comprava-lhe flores de vez em quando.


Quando o táxi chegou, ele sentiu que retomava o controle de sua vida. Mas deixava para trás justamente os momentos em que fôra mais feliz.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A História da Cobra, parte 1

"Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!" (Machado de Assis, "Um Apólogo")


Contam que uma amiga da prima da amiga de um conhecido do... como era mesmo o nome dele?, assim, com uns dez níveis de distância (a quantos níveis de distância, então, estaria eu do Obama?, sempre penso nesses casos), enfim, que essa tal moça deu de criar uma jibóia em casa, tal qual um bichinho de estimação.

Não sei bem se ela levava a cobra para passear, dada a dificuldade de se prender uma coleira - por total ausência de pescoço - ou se levava ao pet shop - certamente não para tosar tampouco para cortar as unhas - ou se comprava xampus especiais ou penduricalhos ou sapatinhos.

Mas é fato que comprava ratinhos e passarinhos e outros bichinhos para saciar o lendário apetite da cobra. Voltando da academia, passava no hortifruti, comprava uma saladinha para o jantar, passava no pet shop, comprava um ratinho para o jantar. E dormiam satisfeitas, as duas, sobre a cama de casal no apartamento do Leblon.

Ouvi dizer que o rosto da empregada ficou pálido, lívido, ao dar de cara com a enorme cobra, dormindo placidamente, enrolada aos pés da patroa, dormindo placidamente.

De uns tempos para cá, a cobra passou a recusar os ratinhos. Acostumados a morrerem esmagados e digeridos, passaram a morrer de pânico - ou da dor da rejeição - no aquário da cobra. (Sim, ela tinha um aquário, embora preferisse o edredom da dona.) Não comia mais ratinhos, ignorava os suculentos passarinhos que a dona lhe trazia aos fins de semana. Pela expressão plácida da cobra, ninguém soube dizer se tratava-se de depressão ou se a mania de dieta de sua mãe a havia contaminado.

Mas estranho mesmo foi quando a cobra passou a dormir esticadinha...

Seu analista (da dona, não da cobra: analista de cobra é demais!) recomendou que levasse a cobra a um profissional qualificado: um encantador de serpentes, ou, muito mais fácil de se encontrar no Leblon, um veterinário.

A sentença não demorou mais do que cinco minutos de anamnese: seria preciso sacrificar Rita. (Sim, a cobra se chamava Rita; uma língua maldosa me disse que era homenagem à Gilda). O diagnóstico era simples: o jejum era para se poupar, se preparar para digerir algo muito grande. E o fato de dormir esticadinha, ao lado do algo muito grande que ela queria digerir, era só uma forma de medir.

Uma cobra tratada com muito carinho, com os ratinhos mais gordos do pet shop da Dias Ferreira, que dormia e acordava no edredom daquele apartamento - coisa que muito homem quis e não pôde - preparava-se ofidiamente para, digamos, deglutir, engolir, papar sua dona e mantenedora. Não faz mais de uma semana, me disseram, deram um fim na cobra.



E arrematou minha amiga, que me contou essa história:

- Também eu tenho feito como a cobra. Só medindo, só medindo...

("A Tentação de Adão e Eva", de William Blake, 1808
- Acervo do Museu de Belas Artes de Boston, EUA)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Para Allison Cunningham, de seu guri

Pelas longas noites que passou desperta
tendo tão pouco em retribuição
Pelo seu cafuné tão confortável
em que eu viajava pela imaginação
Por todos os livrinhos que você me leu
E por me confortar quando doeu

Por toda sua compaixão, todo o seu tédio,
Nos dias tristes e nos dias de bonança
Minha segunda mamãe, primeira esposa
O anjo da minha vida de criança
pequena e doente, cresci e revigorei
Toma, babá, esse livro para você!

Tomara, D´us, tomara que todos que leiam
possam encontrar uma querida babá ou enfermeira
e toda criança que gostar dessas rimas
aconchegada no sofá do lado da lareira
que possa ouvir como alguém que te diz
o que fez minha infância tão feliz!


(Robert Louis Stevenson, in: A Child's Garden of Verses)
(Tradução: Rafael Leal)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Palavra

A palavra só faz sentido quando dá forma vibratória ao ar com a intenção de tangir e encantar. De fascinar amantes e torná-los ainda mais; de celebrar a paz que sepulta o medo; de florar o amor onde haja ciúme e terra arrasada. A palavra também é poderosa peçonha, que escorre pelas fendas da desinformação e atinge os corações inseguros, cheios de certezas. A palavra é a seta definitiva pronta para matar pelo amor ou para fazer morrer de amor o amante descuidado.
A palavra é uma pérola parcialmente defeituosa; impressiona pelo lado certo, da beleza ostentada e brilhante, enoja e se revela a vil digestão quando se observa o outro lado, o lado da crueza da realidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Insensatez

"Põe em ordem a tua casa" (2 Reis 20)


Era a sexta vez que ela ligava naquela noite.

O telefone fazia vibrar toda a mesa, onde ele trabalhava incessantemente, lutando contra o sono e o desespero e a tendinite que teimava em voltar. A garrafa de uísque lhe olhava, a quilômetros de distância, do móvel da sala.

O mais provável é que ela quisesse chamá-lo para sair, beberiam, dariam gargalhadas, perderiam-se, e, muito provavelmente, acabariam enrolados nos lençóis de algum motel. Química inevitável, matemática sombria e magnética, a que os atraía.

Não podia dar-se o luxo de abandonar uma noite de trabalho... os produtores cobravam este novo roteiro - mais uma história de amores impossíveis? - o prazo se esgotava, mas quanto mais ele ficava distante de seus amores possíveis, mais impossível se tornava sua escrita, mais árduo era se colocar no papel, na tela do computador e do cinema.

Talvez ela só quisesse ouvir sua voz grave antes de dormir, talvez quisesse desabafar, declarar um amor incontido, contar uma piada ótima que ouvira ou transmitir grave e urgente notícia. Talvez fosse pura arrogância não querer atendê-la ("que me escreva um e-mail!"). Quando estivesse com ela, que estivesse inteiro, e não com uma metade pendurada em outros assuntos.

Voltou ao trabalho. Escrevia sobre um homem de coração insensato, que se envolvia com duas mulheres e não era capaz de estar por inteiro em momento algum. Estava com uma delas, pensava na outra. Julgava-se capaz de dar conta de tudo, acreditava que um dia a situação se resolveria, e poderia optar, com propriedade, por uma ou outra.


Ao contrário de seu personagem, ele sempre soube, como poucos, conter a própria ausência.

E o telefone tocou pela sétima vez.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fim de Noite

...e o céu, num soturno fade out, viu a lua cheia se apagar lentamente detrás dos Dois Irmãos.

sábado, 12 de julho de 2008

A Tijuca

- Eu nunca fui à Tijuca, - disse ela, depois de um breve silêncio.
- Como assim?
- Nunca fui, ué. Não indo.
- Trinta anos de Rio de Janeiro e você nunca foi à Tijuca? - Ele não conseguia acreditar. - Nunca atravessou o Alto da Boa Vista?
- Não.
- Túnel Rebouças?
- Só para ir ao Maracanã ver o meu Flu.

Ele resolveu não entrar na interminável discussão se Maracanã era um bairro ou era parte da Tijuca. Ou de Vila Isabel.

- Mas e o metrô?
- O mais longe que fui foi a Uruguaiana.

Silêncio.

- A Tijuca não é tão longe assim. Nem dá para dizer que é longe.
- Só que eu nunca fui. E não me sinto culpada por isso.
- Ainda te levo à roda de samba do Estephanio's. Vila Isabel é uma boa introdução à Tijuca.
- Falou "o" tijucano.
- Já reparou que "tijucano" é o único gentílico dos bairros do Rio?

Ela buscou em sua curta lista de bairros cariocas algo para contradizê-lo. Mas não conseguiu. "Copacabanense" seria muito fraco.

- Na Tijuca dá para ver ainda alguns cariocas típicos em seu habitat natural. Devia ser reserva natural da paisagem humana carioca, - ele concluiu, ainda meio sem acreditar, também sentindo-se sem legitimidade para defender a zona norte.


"A Tijuca," diz Aldir Blanc, "não é um estado de espírito. A Tijuca é um estado de sítio."

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Serenata

Música de Paulo Renato Pereira, letra de Rafael Leal.
Gravada em 2006 por Fabiana Passoni, no disco "It's my turn", Los Angeles, CA.

Mar,
grande mar,
me traz a esperança de estar
novamente com você,
meu amor,
teu olhar,
as lembranças que tenho
não podem deixar-me esquecer
de você,
meu amor
me tomou em seus braços
como quem não tem nada a perder,
pois você,
que me amou,
numa noite passada de eterno querer,
me deixou
a chorar
na loucura de talvez não mais
te ver,
pois você
naufragou
na tormenta do mar
que eu fiz pra você...

terça-feira, 17 de junho de 2008

Nem Cais, Nem Barco

Vivem me perguntando o porquê de Nem Cais, Nem Barco. A resposta é mais simples do que parece., porque este é o nome de uma das mais belas (para mim) canções da língua portuguesa, composta por Guinga e por Aldir Blanc. Vejam o primeiro post do blog, ela está lá. Trata-se de uma forma simples de homenagear um dos meus artistas favoritos.

Aldir Blanc é um poeta, compositor e cronista incrível. Poderia dizer que é o melhor isso, um dos melhores daquilo, mas me seguro porque arte não é olimpíada, em que um pódio cabe com naturalidade. Em arte não cabe. Mas posso dizer que poucos poetas são capazes de me emocionar como Aldir Blanc.

Um dia, se ele deixar, ainda faço um filme sobre o universo blanquiano de amores, tijucas, biritas e balcões.

sábado, 14 de junho de 2008

Copacabana

Enquanto o céu do Rio amanhece diferente e clareia até tomar o azul dos teus olhos, o azul do mar vizinho, fiz uma lista das cem principais razões pelas quais tu fazes de mim o homem mais feliz do mundo, mas vou mantê-la em segredo. Palavras são rudes. Jamais contarei a felicidade que me invade quando um enorme sorriso escava duas covas formosas em tuas bochechas, tampouco falarei de como é bom abraçar tua cintura fina ou mordê-la em lugares inomináveis, senão por pudor, por falta de nomes.

Não direi como ficas linda contracenando com a câmera do computador nem espalharei como gosto do teu jeito tímido e da tua fala baixa e dífícil. Nem pensarei em músicas de Jobim ladeiras íngremes cidades do interior suco de acerola Niterói jogo de mau mau nem tantas outras coisas que não permitem meu pensamento deixar-te um só segundo do meu dia.

Afinal, são os teus segredos, que hei de teimar em descobrir enquanto não me faltarem os dias para passar a teu lado.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Outra cena perdida

Apartamento ainda com pouca mobília. Noite quente do verão carioca. Ele e ela deitados no chão da sala, exaustos e suados.

- Qual o seu maior desejo? - ela perguntou.
- Te amar sem limites.

Pausa.

- E o seu? - ele devolveu a pergunta, com um sorriso quase indecente.
- Que você consiga realizar o seu.

A música mais dolorida de Chico Buarque

Em duas versões, a primeira delas, de 1975, censurada no Brasil.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


***

E, a segunda versão, de 1978.

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim


***

Um comentário final: haverá quem ache não ser preciso navegar, apesar de tantas e tantas léguas?

domingo, 6 de abril de 2008

Num futuro hipotético

["A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." Vinícius de Moraes, poeta, músico e diplomata.]


Rio de Janeiro. Algum lugar com vista para Baía de Guanabara. Venta bastante.

- Eu não acho justo a gente ter que se separar. Eu levei minha vida inteira para te encontrar, e quando eu te encontro, vem a vida e te leva de mim.
- Mas você não tem que se preocupar. A gente não precisa se separar. Nem sofrer com isso por enquanto. Nem sei ainda se eu vou, nem é certo se vão me chamar. E mesmo que chamarem, é uma questão de tempo até ficarmos juntos novamente.

Silêncio. Ele continua:

- Você é jovem, linda, tem muito o que viver. E muito ainda o que viver ao meu lado. Antes e depois. Presente e futuro. O pior que pode acontecer é a vida nos obrigar a fazer um intervalinho. Eu sou teu e nada vai mudar isso. E você será minha sempre que quiser. Histórias de amores imortais a gente conhece aos montes. Romeu e Julieta... não, muito trágico. Hmmm, Abelardo e Heloísa... bem, tambem não é um bom exemplo, eles morrem no final. Dexovê...
- Você fica lindinho fazendo esses monólogos.

Beijam-se.

- Meu amor, nossa história não é sobre despedida. Nossa história é sobre eternidade. É lifetime. É jornada. Só abrimos mão dela se quisermos. E eu não quero. A gente só precisa pensar de que forma seremos felizes, isso é inevitável. Hoje a gente vive num mundo sem distâncias. No tempo da saudade, acho que a gente nem tinha nascido. Você certamente não.
- Até parece que você é muito mais velho.
- Muito não, mas um pouco considerável. Olha só, para tudo nessa vida dá-se um jeito. Outros casais tão apaixonados como nós já passaram por isso, sobreviveram e continuam cada vez mais felizes, e juntos. Ou seja, a gente vai dar um jeito. Se é que será preciso. Há tantas coisas...
- Me dá um beijo?

Beijam-se novamente.



Num grande plano geral, os namorados, profundamente integrados à paisagem estonteante, sabem que a beleza tamanha à sua frente e a felicidade tamanha que vivem não existe à toa.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Bilhete só de ida

O tempo maratonista incansável faz evanescer memórias lembranças de pedaços felizes inesquecíveis da vida não faço questão de tirar guardar fotos retratos o que não guardo na cabeça é melhor que não ficasse guardado basta lembrar que fui feliz quando onde com quem não importa se eu não lembrar a frente guardo na fronte nas indeléveis rugas da fronte marcas de tudo que fui sou do que passei vivi sem sentimentalismo nostalgia saudade tudo passa evanesce difícil é lidar com isso.

terça-feira, 11 de março de 2008

Coisas que não farei (Nostalgias)

Nunca irei à Bulgária, tive panfleto & convite

Igual à Albânia, fui convidado ano passado, secretamente por estelionatários
ou alcóolatras em recuperação
Ou poetas iluminados das terras ancestrais dos Portões de Hades
Também não visitarei Lhasa viverei em Hilton ou com a família de Ngawang Gelek
nem regressarei a Potala
Também não voltarei a Khasi "a cidade continuamente habitada mais velha do mundo"
nem banharei no Ganges nem me sentarei em Manikarnika ghat com Peter,
nem visitarei novamente Lord Jagganath em Puri, nunca voltarei a Bibhum
nem anotarei as lendas de Khaki B Baba
Também não irei a festivais de música em Madras com Philip
Nem tampouco tomarei Chai com Sunil & os outros poetas da lanchonete,
Nem amarrarei um véu em minha cabeça em uma boca de fumo de ópio em Chinatown,
nem passarei pelo Moslem Hotel, sua cobertura Tinsmith Street Choudui Chowh Nimtallah
lugar perfeito para fumar ganja em Hooghly
Também não irei às alamedas de Achmed's Fez, nunca mais beberei chá de hortelã no Soco
Chico nem visitarei Paul B. em Tângier
Nem verei a Esfinge no deserto no pôr-do-sol ou no nascer do sol, manhã e tarde
no deserto
A antiga Beirute destruída, Babilônia & Ur tristemente bombardeadas, os mistérios soturnos
da Síria e de todos os desertos Árabes & Sauditas, o povo alegre do Iêmen,
O velho Afeganistão de tribos e ópio, Tibet - os templos do Baluchistão
Nem verei Shangha mais uma vez, para não falar de Dunhuang
Nem escalarei os 3 lances da escadaria do prédio da Rua 12 E.,
Nem irei à literária Argentina, nem verei meus parceiros de copo em São Paulo & nem viverei
um mês num flat nas praias do Rio com os meninos das favelas, nem o maravilhoso
Carnaval da Bahia
Não ficarei acordado sonhando com Bali, o festival de Adelaide é longe demais para comprar
novos incensos
Não verei as novas favelas de Jacarta, as misteriosas florestas de Bornéu & homens
e mulheres pintados
Nada mais de Sunset Boulevard, de Melrose Avenue nem do Oz em Ocean Way
Do velho primo Danny Leegant, lembranças da tia Edith em Santa Mônica
Nada mais de verões românticos com amantes, de dar aulas sobre Blake em Naropa,
sobre escrever Slogans, nova Poética moderna Americama, Williams
Kerouac Reznikoff Rakosi Corso Creely Orlovsky
Nunca visitarei B'nai Israel os túmulos de Buda, tia Rosa, Harry Meltzer e
tia Clara, meu pai Louis,
Não pessoalmente exceto numa urna de cinzas.


Allen Ginsberg, 1960´s

poema-testamento de Allen Ginsberg
escrito a 30 de março de 1997, cinco dias antes de sua morte
tradução Rafael Leal

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Um pouco além de Barthes

Num passado remoto, nossos ancestrais usavam as patas para correr e a boca era o instrumento da predação. Quando passamos a correr apenas sobre as patas traseiras, evolução ainda responsável pelas lombalgias que sentimos, as patas dianteiras, que convencionamos chamar de mãos, tomaram o papel da boca, de apresar nosso alimento, relegando-a a um outro papel.

Livrada do ofício da predação, a boca passou a falar. Desenvolveu-se o aparelho fonador e com ele a comunicação verbal. Barthes acrescenta o beijo a esta equação. O aparelho fonador é o mesmo aparelho osculatório. O homem que fala, beija.


Por isso, não acredito nem um pouco em teu silêncio. Tens a necessidade de falar, de comunicar-se com quem quer (precisamente, também com quem possa, além de querer) te entender. Tens a necessidade de entregar-te a quem te queira e te possa entender, ainda que tu não queiras ou possas.

E tome dor nas costas.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pessoalidades

Algum supermercado vinte e quatro horas da zona sul do Rio de Janeiro e velho hábito de fazer compras de madrugada.

"Ei, que coincidência!"
"Sempre fiz compras a essa hora, você sabe."
"Tudo bem?"
"Tudo."

Algumas pessoas parecem incapazes de perceber a falta de vontade de prosseguir em uma conversa, expressa normalmente pelo semblante e pela seqüência de respostas monolíticas.

Sem saber como, ele foi parar com ela na cafeteria do supermercado. Era a primeira vez que ele a via desde a briga derradeira, há um par de anos. Pareceu-lhe que a balança começava a ganhar a eterna briga.

Ela falava compulsivamente:

"A minha mãe teve um furúnculo ano passado que não sarava nunca. Era só eu me distrair um pouco que lá estava ela, gritando e jogando pus para tudo quanto é lado. Acho que depois que papai morreu ela ficou muito sozinha."

Ela parecia esquecer que o pai havia morrido há quinze anos e que a mãe sempre fora sozinha. De tão chata, talvez.

"Aquele terreno em Guaratiba eu vendi. Ah, o imposto estava muito alto, e eu não ia construir mais aquela casinha. Abriu um hotel ali perto e quando eu quiser ir pra lá eu posso ir direto sem ter que ficar limpando casa, fazendo compras."

Às vezes, como que para retomar o fôlego, perguntava:

"Posso falar dessas coisas com você, não? Nós somos amigos!"

E prosseguia, cada vez mais pessoal:

"Depois que eu me separei de você, fiquei sozinha um tempo mas aí apareceu o André. No começo foi tudo ótimo, mas depois ele foi ficando ciumento também, igual a você, só que pior. Começou a mexer na minha agenda, abrir os meus emails. Se continuar assim eu vou entrar para um convento. Por que os homens tem mania de achar que precisam saber da minha vida? Eu não sei o que há comigo, só atraio homem ciumento, não consigo imaginar porquê."

"Talvez porque você seja uma puta," ele pensou sem dizer. "Aham," ele disse.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O Bigode

Bigode é nome dado ao conjunto de pêlos faciais humanos localizados entre o nariz e o lábio superior. Traço comum nos machos da espécie humana, cultivado sozinho ou conjuntamente com a barba (conjunto de pelos faciais que cobre a metade inferior do rosto), o bigode também ocorre em parte das fêmeas, que, no entanto, optam por raspá-lo (a maioria).

O bigode, ao longo dos séculos, consagrou-se como fator de identificação do macho e da masculinidade em várias culturas, sobretudo equatoriais. Povos do Oriente Médio, Norte da África e América Latina estão diretamente ligados à cultura do bigode. Nas últimas décadas, foi relegado cruelmente aos terminais de ônibus e às portarias dos prédios. No entanto, num passado não muito distante, o bigode era símbolo de ostentação, pujança e prosperidade, de modo que era adereço facial obrigatório entre quase todos os homens (e algumas mulheres) de relevo.

Recentemente, a ditadura estética do clean e da androginia promoveu uma "faxina visual" nos rostos dos homens, condenando ao exílio este formoso conjunto de pêlos e ao ostracismo seus defensores mais fiéis. Apenas os bigodes brancos estão impunes ao patrulhamento estético. Ainda hoje, motoqueiros, motoristas de táxi, pintores surrealistas, toureiros e artistas de vanguarda ainda estão legitimamente ligados à estética do bigode.