segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobre distensões e rimas

Dorme, criança, dorme enquanto podes. A noite ainda te é leve e não há com o que preocupar-te. Ama com o frescor de teus dias e encanta com teus olhos azuis e teus seios rosados. Voa que asas não te faltam, e o canto te sobra, e as mãos têm apenas um suave toque e um rude encanto.

Ri de minhas piadas opacas, ofuscadas pela luz dos olhos teus. Ouviremos Tom cantar, quando pudermos, quanto quiseres, para que faças crescer teu léxico amoroso. Teu coração é um músculo que muito ainda tem que malhar. Sonha com um mundo alheio quando dormires, porque quando acordares, estarei te esperando.

Imaginarias alguma hora que teria por ti o que criara ter por mim? Nem eu, amiga mais querida. És um incêndio ainda por principiar-se. Que penso eu do que seremos, eu que mal sei o que sou? (Tantos Pessoas e Vinícius ainda por serem ditos.) Sei que estou rubro, e a manhã tarda. Há tanto a escrever, e as palavras falham. Respondo teu acróstico com a certeza de um beijo calado.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Quem não sabe o que é saudade

Quem não sabe o que é saudade, acredita que é nostalgia, vontade de rever. Quem não sabe o que é saudade tropeça nos amores pouco possíveis; quem conhece bem a cachaça e a dor da saudade, até mergulha em amores possíveis e improváveis, sabendo dos riscos e tomando-os por opção ou descuido. Quem não sabe o que é saudade - os incautos - chega a pensar que é um sentimento pretérito. A saudade é também um sentimento futuro. Tenho saudade de cidades que nunca visitei - e nunca visitarei, de amigos que nunca fiz, de mulheres que nunca amei. Tenho saudade da poesia do cotidiano. Tenho saudade da menina que não conheço e perturba o meu sono. Tenho saudade da imobilidade que alivia e conforta. Quem não sabe o que é saudade, não sonha.

Quem não sabe o que é saudade, nunca ouviu o "Samba do Soho," de Paulo Jobim e Ronaldo Bastos.

Elogios Velados

Não te espantes com minhas olheiras profundas, por rotineiras que são. Os percalços da vida não me tiram a alegria de viver, de estar vivo, saudável e, se possível, jovem. É tudo comigo, como sempre. O desconforto, o amor-próprio dilatado por atrair teus olhos tão azuis, a esperança renovada, a expectativa da falta de expectativa, a crença na descrença. Meus elogios vão escondidos nas entrelinhas, perdidos entre beijos clandestinos, entre desejos que molham meus lábios na língua e secam muito antes de tocarem os teus. Um anjo passou perto de ti e me disse que não podia ajudar.