sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O fundo do poço

Depois de tocar o fundo do poço, não é a vida mais bela por vislumbrar o que eventualmente se perdeu. É mais bela por ter visto no horizonte todo o alcance a que se pode ir. Depois de tocar o fundo do poço, volto menos dogmático, nem por isso mais relativista. Volto menos ignorante, mas nem por isso mais sábio. Mais indignado, e ainda assim indiferente. Mais capaz de estragar o momento fatal, de transformar em cinzas possíveis grandes amores, mas também ineditamente capaz de extrair uma chama fugaz - e ainda assim eterna - de uma fogueira há muito adormecida.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Desejo

Eu queria conhecer contigo todas as cidades com nome de mulher. Eu queria te mostrar todos os discos do Tom Jobim, e uns bons do Caetano. Deitar na tua cama e ouvir tantos discos de jazz. E então beijar teu corpo, beijar tuas mãos, teus pés. Eu queria te ensinar a jogar pôquer, te ensinar a jogar sinuca, jogar fliperama, pingue-pongue. Eu queria acreditar que podemos escapar das torturas, das obrigações e da falta de delicadeza. Fugir dos vestidos e das mentiras. Eu queria começar sem a preocupação de acabar, com ou sem gran-finale. Queria amanhecer contigo sem a obrigação de anoitecer.


("In Bed The Kiss", de Henri de Toulouse-Lautrec, 1892, acervo particular)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Improbabilidades

Uma tarde paulista, quase como todas as outras. Um café, na Augusta.

- Eu não quero que você se apaixone por mim.
- Mas eu não vou me apaixonar por você. Nossa polaridade não bate, você nunca percebeu?
- Não sei.

Ela pede um chá verde, ele um capuccino. Olham-se, longamente.

- A gente até pode se envolver, mas eu tenho namorado e as coisas só poderão ir até determinado ponto.
- E daí?
- E daí que se você se apaixonar por mim, vai estragar tudo.
- Eu já disse que não vou me apaixonar.

Contemplam-se.

- E se você se apaixonar por mim?