segunda-feira, 4 de junho de 2007

Oferta Especial

Acordou cedo, coisa com a qual não estava muito habituado. Um beijo, depois o café, o cigarro, o jornal, como na música de Roberto e Erasmo. Eis que no jornal, um de seus colunistas favoritos aponta a escassez de homens interessantes disponíveis no mercado.

Chega ao ponto de contar a história de uma amiga, quiçá hipotética, que conheceu um homem interessante - belo de corpo e fundo de alma, ligado em artes, modas, vinhos e chicobuarques. Saiu com ele uma vez, e nada. "A pressa é inimiga da perfeição." Saiu pela segunda vez, novamente nada. "Talvez seja apenas um homem muito educado, formal." Rabiscou um envolvimento, abortado pela constatação bombástica e possivelmente apressada: gay.


Dobrou o jornal, terminou seu café e acendeu mais um cigarro. Estava acordado há menos de uma hora e era o segundo cigarro que fumava. "Preciso parar de fumar," constatou. Tal qual a amiga do colunista, ele saíra um par de vezes com uma moça sem que nada houvesse acontecido entre eles, não por descuido, tampouco por acidente. E muito menos por ser gay. Disso ele não tinha dúvidas.

Mas como poderia convencê-la disto? Talvez pudesse creditar a suposta falta de iniciativa pela herança cultural altamente formal que recebera do pai e de que tentava, com mais esforço do que sucesso, livrar-se. Talvez pela absoluta falta de oportunidade, pela falta de abertura dela ou pela falta de talento dele. Ou ainda, pelo medo que ela (ou ambos?) poderia ter de envolver-se novamente, dado o potencial altamente explosivo dessa química, que recomenda distância segura de fogueiras de antanho que não sejam totalmente cinzas.


Explicações, teorias, culpados haveria mil. A fazer, uma coisa só.