terça-feira, 24 de abril de 2007

Reciprocidade

Não se tratava de qualquer tipo de espera, muito comum na literatura, pois não haviam combinado nada. Ele esperava apenas pelo velho hábito de esperar, de buscar nos outros a mesma dignidade que ele procurava ter em suas relações interpessoais.

Conta a sabedoria judaica que, certa vez, um andarilho solicitou de dois religiosos que lhe cruzaram o caminho da vida que lhe explicassem em uma hora o conteúdo da Torá, para que ele se convertesse. O primeiro declarou impossível tal tarefa: conhecer a Torá e agir consoante sua moral dependia de muita fé e muito estudo. O outro rabino, logo em seguida, disse: "Não faça aos outros aquilo que você não quer que façam com você. Eis tudo que diz a Torá. O resto é comentário. Agora vá e estude."

Também não se tratava de cerceamento de liberdade, de controle ou de qualquer tipo de cobrança: eram zelo e reciprocidade, conceitos em baixa atualmente. Era-lhe muito difícil ser vanguarda e cavalheiro; superfície e símbolo; entrega e autopreservação. Mas ele se esforçava, tratando os outros como gostaria de ser tratado, amando como gostaria de ser amado e, principalmente, zelando pelos outros na tola expectativa de que olhassem por ele.

E, no que dependesse somente de seus esforços, continuaria como um paladino da civilidade, em sua quixotesca cruzada pessoal contra o egoísmo e o desamor.


Já passava de onze horas da noite e ela ainda não havia voltado.