segunda-feira, 23 de abril de 2007

Da saudade

"Sejam bem-vindos a São Paulo, são treze horas e vinte e um minutos e a temperatura local é de vinte e dois graus," anunciou o comandante. Um alívio comparado aos quase quarenta graus do Rio que ele deixara uma hora antes.

Chegar em São Paulo sempre foi uma sensação muito boa, uma idéia associada à noite, à sua mãe, a bons jantares, diversão, trabalho. Mas desta vez, havia algo impregnado em suas narinas que distorceu violentamente o cheiro característico de Congonhas. Tudo naquele aeroporto lembrava-lhe ela - o salão de desembarque, onde esperou angustiado tantas vezes vê-la sair; a caixa dos correios, onde lembraram-se das folhas de amendoeira que haviam depositado numa similar, na infância distante, quando se conheceram; no balcão da cafeteria, em que enganava o frio na barriga com café bem quente. Desta vez, até o cheiro do saguão trouxe-a à memória dele.

Na noite anterior ao embarque, tinham dormido juntos, acordado cedo e ele partira, talvez pela última vez. As coisas não andavam bem, e embora se amassem urgentemente, talvez não estivessem prontos para tanto amor. Ou então, talvez, fossem elocubrações de sua mente fantasiosa, que por temer tanto o fim desse amor, defendia-se de todas as maneiras possíveis.

Ele já tinha superado crises muito maiores em prol de amores muito menores, se amores. Não seria dessa vez, em que ele tinha a certeza de que a vida lhe trouxera seu grande e verdadeiro amor, que ele sucumbiria na primeira dificuldade. Homens como ele, românticos incorrigíveis e artistas, mais por necessidade do que por opção, precisavam - desde sempre - acreditar no mito do amor verdadeiro. Mais do que isso, era preciso lutar por ele.


Depois de alguns dias em São Paulo, a saudade doendo como uma cólica no espírito, ele acalmou-se, tragou com profundidade o ar poluído, bebeu mais um gole de seu whisky e concluiu que, fosse preciso, lutaria até o fim do mundo por essa linda história de amor.