terça-feira, 24 de abril de 2007

Reciprocidade

Não se tratava de qualquer tipo de espera, muito comum na literatura, pois não haviam combinado nada. Ele esperava apenas pelo velho hábito de esperar, de buscar nos outros a mesma dignidade que ele procurava ter em suas relações interpessoais.

Conta a sabedoria judaica que, certa vez, um andarilho solicitou de dois religiosos que lhe cruzaram o caminho da vida que lhe explicassem em uma hora o conteúdo da Torá, para que ele se convertesse. O primeiro declarou impossível tal tarefa: conhecer a Torá e agir consoante sua moral dependia de muita fé e muito estudo. O outro rabino, logo em seguida, disse: "Não faça aos outros aquilo que você não quer que façam com você. Eis tudo que diz a Torá. O resto é comentário. Agora vá e estude."

Também não se tratava de cerceamento de liberdade, de controle ou de qualquer tipo de cobrança: eram zelo e reciprocidade, conceitos em baixa atualmente. Era-lhe muito difícil ser vanguarda e cavalheiro; superfície e símbolo; entrega e autopreservação. Mas ele se esforçava, tratando os outros como gostaria de ser tratado, amando como gostaria de ser amado e, principalmente, zelando pelos outros na tola expectativa de que olhassem por ele.

E, no que dependesse somente de seus esforços, continuaria como um paladino da civilidade, em sua quixotesca cruzada pessoal contra o egoísmo e o desamor.


Já passava de onze horas da noite e ela ainda não havia voltado.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Da saudade

"Sejam bem-vindos a São Paulo, são treze horas e vinte e um minutos e a temperatura local é de vinte e dois graus," anunciou o comandante. Um alívio comparado aos quase quarenta graus do Rio que ele deixara uma hora antes.

Chegar em São Paulo sempre foi uma sensação muito boa, uma idéia associada à noite, à sua mãe, a bons jantares, diversão, trabalho. Mas desta vez, havia algo impregnado em suas narinas que distorceu violentamente o cheiro característico de Congonhas. Tudo naquele aeroporto lembrava-lhe ela - o salão de desembarque, onde esperou angustiado tantas vezes vê-la sair; a caixa dos correios, onde lembraram-se das folhas de amendoeira que haviam depositado numa similar, na infância distante, quando se conheceram; no balcão da cafeteria, em que enganava o frio na barriga com café bem quente. Desta vez, até o cheiro do saguão trouxe-a à memória dele.

Na noite anterior ao embarque, tinham dormido juntos, acordado cedo e ele partira, talvez pela última vez. As coisas não andavam bem, e embora se amassem urgentemente, talvez não estivessem prontos para tanto amor. Ou então, talvez, fossem elocubrações de sua mente fantasiosa, que por temer tanto o fim desse amor, defendia-se de todas as maneiras possíveis.

Ele já tinha superado crises muito maiores em prol de amores muito menores, se amores. Não seria dessa vez, em que ele tinha a certeza de que a vida lhe trouxera seu grande e verdadeiro amor, que ele sucumbiria na primeira dificuldade. Homens como ele, românticos incorrigíveis e artistas, mais por necessidade do que por opção, precisavam - desde sempre - acreditar no mito do amor verdadeiro. Mais do que isso, era preciso lutar por ele.


Depois de alguns dias em São Paulo, a saudade doendo como uma cólica no espírito, ele acalmou-se, tragou com profundidade o ar poluído, bebeu mais um gole de seu whisky e concluiu que, fosse preciso, lutaria até o fim do mundo por essa linda história de amor.