sábado, 2 de dezembro de 2006

Viviane

Foi numa aula que Viviane tomou ciência da minha existência. Eu, sempre sentado ao fundo da sala, disse algo - como sempre fazia - ao professor, e ela virou-se para trás para saber quem era o dono da voz grossa que interrompia a aula com um comentário metido a engraçado.

Era uma mulher muito bonita, pouco mais velha do que eu, que cursava algumas matérias na escola de Cinema. Sempre perguntava, ao final das aulas, quando eu a chamaria para tomar uma cerveja na praça vizinha à faculdade, repleta de bares e que enchia de estudantes no final da tarde buscando na cerveja alívio para o intenso calor do verão carioca e para o igualmente intenso desânimo que ter aulas nas férias - graças às sucessivas greves - causava.

Viviane era uma mulher especialíssima: vegetariana radical, versada nas artes ocultas do paganismo celta, dona de uma risada inconfundível e deliciosa, excelente cozinheira.

Depois de incontáveis horas e cervejas no bar, fui deixá-la em casa. Ela - como todos nós estudantes cariocas exilados em Niterói, cidade do interior do estado do Rio situada do outro lado da baía da Guanabara - morava próximo à praça e à faculdade, e como bom moço de inclinações cavalheirescas, fui deixá-la no portão, onde todo o clima e a tensão que havíamos construído no bar floresceu.

Por algum instinto maluco que até hoje não consigo explicar, não a beijei naquela noite quente por absoluta falta de um drops que me tirasse da boca o gosto de cervejas e cigarros. Sem entender nada, ela foi dormir, acordada no dia seguinte por um telefonema meu, convidando-a para o aniversário de uma amiga comum.

Incerta ainda se eu era gay - fato comum na escola de cinema - ela aceitou o convite. Na festa, debruçados sobre uma janela, nos beijamos sabor drops. Halls preto.

Entre os apaixonados meses de namoro que se seguiram e idas e vindas de inconciliação, ficamos juntos por quase um ano. Um ano feliz, eu diria. E, tendo chegado a nossa quarta-feira de cinzas, soubemos civilizadamente a hora certa de parar, preservando uma grande amizade - e um grande carinho - que nos une.

Amizade sabor halls preto.

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