quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Bianca

Aos que estão mal-acostumados com minhas escritas ou que chegaram até aqui desavisados, avisa-se de antemão que este conto não contém sexo, amores nem demais violências, boas ou más. Mas contém uma coleção de brevidades que marcaram minha vida.

Uma prova de vestibular é um dos locais da mitologia adolescente menos provável de se conhecer pessoas novas. Naquele princípio de tarde de verão carioca, ao invés da praia que chamava (os outros, porque sempre odiei praia), eu me dirigia ao Colégio Pedro II, em São Cristóvão, para me submeter a mais uma prova.

Assim como eu ia, também iam outras pessoas, saindo de suas tocas em Copacabana e dirigindo-se à avenida que nomeava o bairro, tomar um ônibus que nos deixasse, a todos, no local da prova.

Sentar à cadeira de prova, fingir que relaxa, olhar à volta, reconhecer na sala um amigo de infância, acenar disfarçando a angústia, continuar o périplo do olhar, achar bonitinha a garota da primeira fila, saia muito curta para uma prova de vestibular, não?, mas também com um calor desses, e finalmente encontrar uma nuca estranhamente familiar na carteira da frente.

Uma nuca loura que pedia que eu puxasse algum assunto no primeiro momento oportuno, e quando ela virou-se para trás, devo ter feito algum comentário idiota que a memória graciosamente me furtou de lembrar, mas o contato estava feito. De fato, ela tinha vindo comigo no ônibus. Era aquela loirinha de olhos azulíssimos, com cara de paulista e aparelho nos dentes, bolsinha vermelha com estojo, óculos e todas as coisas que adolescentes paulistas - sem juízo de valores - carregam em suas bolsinhas vermelhas.

Bianca era de Campinas, prestava vestibular para o mesmo curso que eu. Estava hospedada em Copacabana, no Astoria da Paula Freitas. Estabelecido o contato, foi pouco até irmos e voltarmos todos os dias juntos, durante os cinco dias de prova. Depois disso, sem iludir o leitor, vimos-nos apenas uma vez, quando eu estava de passagem em Campinas tomamos uma cerveja num Giovanetti que nem existe mais, soube depois. Mas mantivemos, no limite do que possa significar isso, um contato.

Como já foi dito, não é uma história de amor. Nada indica, também, que venha a ser algum dia - o que me obrigaria a uma imprópria revisão neste conto. Por algum motivo insondável, pessoas que passam por nossas vidas marcam mais do que ficam, intenções (tensões?) mais do que paixão, impressões mais do que fatos.

Acredito ser, até o presente momento, o ocorrido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário