terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Cena de um filme a ser escrito

Chão de um apartamento qualquer. Coisas em caixas por todos os lados. Pouco depois de um reveillon.

- Você é meu primeiro homem desde que eu me separei do Alarico.
- E como foi?
- Estranho. Estranhamente bom.

Ele acende um cigarro.

- Eu sou sua primeira mulher desse ano?
- Você quer que eu fale a verdade ou que eu minta? se vc disser sem convicção que eu fale a verdade, eu vou mentir.
- Eu quero que você fale a verdade.
- Não.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Bianca

Aos que estão mal-acostumados com minhas escritas ou que chegaram até aqui desavisados, avisa-se de antemão que este conto não contém sexo, amores nem demais violências, boas ou más. Mas contém uma coleção de brevidades que marcaram minha vida.

Uma prova de vestibular é um dos locais da mitologia adolescente menos provável de se conhecer pessoas novas. Naquele princípio de tarde de verão carioca, ao invés da praia que chamava (os outros, porque sempre odiei praia), eu me dirigia ao Colégio Pedro II, em São Cristóvão, para me submeter a mais uma prova.

Assim como eu ia, também iam outras pessoas, saindo de suas tocas em Copacabana e dirigindo-se à avenida que nomeava o bairro, tomar um ônibus que nos deixasse, a todos, no local da prova.

Sentar à cadeira de prova, fingir que relaxa, olhar à volta, reconhecer na sala um amigo de infância, acenar disfarçando a angústia, continuar o périplo do olhar, achar bonitinha a garota da primeira fila, saia muito curta para uma prova de vestibular, não?, mas também com um calor desses, e finalmente encontrar uma nuca estranhamente familiar na carteira da frente.

Uma nuca loura que pedia que eu puxasse algum assunto no primeiro momento oportuno, e quando ela virou-se para trás, devo ter feito algum comentário idiota que a memória graciosamente me furtou de lembrar, mas o contato estava feito. De fato, ela tinha vindo comigo no ônibus. Era aquela loirinha de olhos azulíssimos, com cara de paulista e aparelho nos dentes, bolsinha vermelha com estojo, óculos e todas as coisas que adolescentes paulistas - sem juízo de valores - carregam em suas bolsinhas vermelhas.

Bianca era de Campinas, prestava vestibular para o mesmo curso que eu. Estava hospedada em Copacabana, no Astoria da Paula Freitas. Estabelecido o contato, foi pouco até irmos e voltarmos todos os dias juntos, durante os cinco dias de prova. Depois disso, sem iludir o leitor, vimos-nos apenas uma vez, quando eu estava de passagem em Campinas tomamos uma cerveja num Giovanetti que nem existe mais, soube depois. Mas mantivemos, no limite do que possa significar isso, um contato.

Como já foi dito, não é uma história de amor. Nada indica, também, que venha a ser algum dia - o que me obrigaria a uma imprópria revisão neste conto. Por algum motivo insondável, pessoas que passam por nossas vidas marcam mais do que ficam, intenções (tensões?) mais do que paixão, impressões mais do que fatos.

Acredito ser, até o presente momento, o ocorrido.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Viviane

Foi numa aula que Viviane tomou ciência da minha existência. Eu, sempre sentado ao fundo da sala, disse algo - como sempre fazia - ao professor, e ela virou-se para trás para saber quem era o dono da voz grossa que interrompia a aula com um comentário metido a engraçado.

Era uma mulher muito bonita, pouco mais velha do que eu, que cursava algumas matérias na escola de Cinema. Sempre perguntava, ao final das aulas, quando eu a chamaria para tomar uma cerveja na praça vizinha à faculdade, repleta de bares e que enchia de estudantes no final da tarde buscando na cerveja alívio para o intenso calor do verão carioca e para o igualmente intenso desânimo que ter aulas nas férias - graças às sucessivas greves - causava.

Viviane era uma mulher especialíssima: vegetariana radical, versada nas artes ocultas do paganismo celta, dona de uma risada inconfundível e deliciosa, excelente cozinheira.

Depois de incontáveis horas e cervejas no bar, fui deixá-la em casa. Ela - como todos nós estudantes cariocas exilados em Niterói, cidade do interior do estado do Rio situada do outro lado da baía da Guanabara - morava próximo à praça e à faculdade, e como bom moço de inclinações cavalheirescas, fui deixá-la no portão, onde todo o clima e a tensão que havíamos construído no bar floresceu.

Por algum instinto maluco que até hoje não consigo explicar, não a beijei naquela noite quente por absoluta falta de um drops que me tirasse da boca o gosto de cervejas e cigarros. Sem entender nada, ela foi dormir, acordada no dia seguinte por um telefonema meu, convidando-a para o aniversário de uma amiga comum.

Incerta ainda se eu era gay - fato comum na escola de cinema - ela aceitou o convite. Na festa, debruçados sobre uma janela, nos beijamos sabor drops. Halls preto.

Entre os apaixonados meses de namoro que se seguiram e idas e vindas de inconciliação, ficamos juntos por quase um ano. Um ano feliz, eu diria. E, tendo chegado a nossa quarta-feira de cinzas, soubemos civilizadamente a hora certa de parar, preservando uma grande amizade - e um grande carinho - que nos une.

Amizade sabor halls preto.