segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Casting

1.
B., desenvolta, sorriso cativante. Seus olhos ora focam uma realidade extremamente presente, ora estão ausentes. Engenheira de um complexo sistema de amortecimento e estabilização por compensação emocional, do qual é criadora e criatura, superfície e símbolo. Um olhar mais atento revela ideais nobres e um bocado de laissez-faire. Racionalista, tanto quanto uma equação de efemérides astrológicas e suas relações com o futuro da humanidade, exata e inexata no mesmo paradoxo.

Talvez o diretor queira sugerir à atriz que performará B. uma certa dose de lirismo e dúvidas, a fim de aprofundar a empatia com a audiência.


2.
C., personagem difícil, de características primárias aparentemente planas, recato e fantasia. É preciso uma análise mais minuciosa para revelar a magia desta personagem, que transparecem timidamente por olhos azuis como um grito. Trata-se da personificação de uma aquarela de Blake. Uma queda, segundo consta, um tanto acentuada por elfos e congêneres.

O diretor deve fazer com que a atriz atinja o nível preciso desta personagem, sob a pena da inverossimilhança. Recomenda-se cautela, de ambos.


3.
P., uma das personagens mais ecléticas do teatro universal. Carismática e contundente, versátil e com um intenso apreço por convicções. Um olhar mais atento sugere uma inesperada porém enorme doçura. Ideóloga eventual, senão de uma geração, de um grupo próximo que sua altivez encanta sem eclipsar. Notável, como é comum nestes casos, a atração que sente por espécimes, digamos, pouco afeitos ao convencionalismo higiênico.

Convém ao diretor instilar convicção, reiterar a doçura às vezes pouco aparente e, principalmente, uma encantadora dose de puerícia suburbana em contraste com a aparente maturidade urbana.




Pirandellos à parte, peça em três atos, três personagens (à procura de um autor?), para três atrizes adultas.
Currículos com foto na portaria deste jornal.

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