terça-feira, 7 de novembro de 2006

Uma reflexão deslocada

["People are always blaming their circumstances for what they are. I don't believe in circumstances. The people who get on in this world are the people who get up and look for the circumstances they want, and, if they can't find them, make them." Fonte: "Mrs. Warren's Profession", Ato II, de Sir George Bernard Shaw]



Ela já o esperava na mesa do bar, belíssima como sempre, quando ele chegou alguns minutos atrasado. Ele a cumprimentou com um beijo tímido na face, sentou-se e, sem dizer nada, esperou pelo whisky (que o garçom automaticamente traria) que lhe faz fluir as palavras.

Apesar de ser uma idéia deveras atraente, a felicidade dele depender inteiramente de outra pessoa era praticamente inviável, contrariando tudo os conceitos do grande amor que, com seus filmes, ele alardeava.

Quando era jovem, muito antes de suas histórias pueris aspirarem às telas de cinema, apaixonava-se com incrível facilidade, alvo fácil para setas mitológicas. Talvez até tenha conhecido, nessa época, o que é o grande amor, o amor incondicional e imorredouro, como conhecem as crianças e os loucos. No entanto, as crianças são educadas, os loucos aprisionados, e esse conhecimento e essa certeza adormecem em algum recôndito perdido de nossas memórias.

Ele começou a falar, ela ouvia quieta, como era de seu feitio. Não que eles estivessem irremediavelmente apaixonados um pelo outro, era exatamente essa a questão: eles não estavam! E que isto não deveria impedir - ou condicionar - que eles tentassem viver uma história juntos, como se o amor fosse uma construção, bem como a felicidade. Afinal, e se um cupido estivesse esperando, na falta das imagens, pelos sons a indicar a alcova para onde deveriam ser direcionadas suas setas?

Na falta das condições que eram vistas no cinema, era fundamental achar alernativas, criar as próprias oportunidades. Os tempos mudavam cada vez mais rápido e eles eram pessoas presas entre duas gerações. Eram invisíveis.


"Foi um tiro de canhão, ou é meu coração explodindo?", pergunta Ilsa (Bergman) a Rick (Bogart) em Casablanca, palco de conflitos na Segunda Guerra Mundial. E hoje, distantes seis décadas, não há mais bares em meio às guerras, só o silêncio.


Ele rompeu o silêncio para pedir mais um insolúvel whisky.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Casting

1.
B., desenvolta, sorriso cativante. Seus olhos ora focam uma realidade extremamente presente, ora estão ausentes. Engenheira de um complexo sistema de amortecimento e estabilização por compensação emocional, do qual é criadora e criatura, superfície e símbolo. Um olhar mais atento revela ideais nobres e um bocado de laissez-faire. Racionalista, tanto quanto uma equação de efemérides astrológicas e suas relações com o futuro da humanidade, exata e inexata no mesmo paradoxo.

Talvez o diretor queira sugerir à atriz que performará B. uma certa dose de lirismo e dúvidas, a fim de aprofundar a empatia com a audiência.


2.
C., personagem difícil, de características primárias aparentemente planas, recato e fantasia. É preciso uma análise mais minuciosa para revelar a magia desta personagem, que transparecem timidamente por olhos azuis como um grito. Trata-se da personificação de uma aquarela de Blake. Uma queda, segundo consta, um tanto acentuada por elfos e congêneres.

O diretor deve fazer com que a atriz atinja o nível preciso desta personagem, sob a pena da inverossimilhança. Recomenda-se cautela, de ambos.


3.
P., uma das personagens mais ecléticas do teatro universal. Carismática e contundente, versátil e com um intenso apreço por convicções. Um olhar mais atento sugere uma inesperada porém enorme doçura. Ideóloga eventual, senão de uma geração, de um grupo próximo que sua altivez encanta sem eclipsar. Notável, como é comum nestes casos, a atração que sente por espécimes, digamos, pouco afeitos ao convencionalismo higiênico.

Convém ao diretor instilar convicção, reiterar a doçura às vezes pouco aparente e, principalmente, uma encantadora dose de puerícia suburbana em contraste com a aparente maturidade urbana.




Pirandellos à parte, peça em três atos, três personagens (à procura de um autor?), para três atrizes adultas.
Currículos com foto na portaria deste jornal.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

De olhos, jazz e cupidos

["Love looks not with the eyes but with the mind; And therefore is winged Cupid painted blind." William Shakesperare. Fonte: A Midsummer Night´s Dream, Ato 1, Cena 1, v. 240-241]


Quando ela entrou no pub, seus olhos iluminaram o salão esfumaçado como duas luas gêmeas. Luas azuis, como a que Billie Holliday imortalizou. Aliás, pensou ele, fosse possível, seria perfeito que a própria Billie estivesse ali, lamuriando amores impossíveis que, como os dados, rolavam às dúzias na atmosfera etílica dos pubs.

Há muito tempo ele gostava da expressão "olhos de mar", cunhada por Aldir Blanc, o mesmo que certa vez definira o mar como "o belo espelho da luz das estrelas". Agora, eram luas que continham doses quase insuportáveis de mar. Ocorrera-lhe, antes que ela chegasse ao balcão onde ele encostava-se, que Machado de Assis talvez tivesse sido o pioneiro nas ligações entre olhos e mares, creditando a Capitu "olhos de ressaca", que engole as areias da praia e deixa o Rio, como ela, furiosamente belo.

Ela sentou-se ao lado dele, pediu uma Guinness, e olharam-se longamente. Ele gostava muito de olhar para ela, como se seus olhos a pudessem tocar. Por um minuto, ou mais, ficaram em silêncio, olhares sólidos percorrendo seus corpos e o oceano de seus rostos. Mesmo um cupido cego que passasse, voando, por ali, certamente não teria dificuldades em acertar suas flechas onde fosse mais cabido.


Quando ele chegou em casa, sem saber em que pensar, colocou "Blue Moon" no toca-discos na voz de Billie Holliday, largou-se no sofá e resolveu não pensar. Sozinho na sala de estar, ele sentiu que alguém o olhava. Talvez um cupido - pensou - refazendo seu alvo.