segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Olhos de mar

[There are the elect to whom beautiful things mean only beauty. Fonte: Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray, Prefácio.]

Havia muito tempo que um par de olhos não lhe despertavam tanto o interesse. E justamente agora, olhos de mar, olhos blancquianos que haveriam de tirar-lhe um imerecido, até indesejado, sossego.

Talvez "interesse" fosse a palavra exatamente adequada, pois demonstrava timidamente um princípio de vontade de que as coisas fluissem, de que a vida e o acaso que não existe os presenteassem com a mágica do encontro, a mágica suprema que move a humanidade.

Era exatamente o que ele esperava, sempre esperara, ser movido de sua quietude inercial. Aliás, ocorreu a ele (que sem coragem de falar guardou para si a constatação), emoção e movimento eram palavras irmãs. O movimento do corpo condicionando o movimento da alma. O sexo e o esporte. E os vapores que dão liga à sucessão de fatos a que chamamos vida.

Olhos que fizeram parte de um passado que ele mal reconhecia como seu, que lembravam-lhe um olhar tão ausente, perdido no passado, tão carente de memorialismos e, ao mesmo tempo, forte, brilhante e fugidio - como a luz de uma vela no vento. E ainda que fosse celebrada apenas a possibilidade do encontro, que se não é tão prazerosa também não comporta decepções, já podia considerar um grande presente esse laço, esse nó atando duas pontas perdidas na vida. Coisas belas, enfim, significam apenas beleza.

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