domingo, 15 de outubro de 2006

Hamlet e a falta de horizontes

"Ser ou não ser - eis a questão" é sem dúvida nenhuma a mais repetida de todas as citações de Hamlet. No entanto, o início do segundo ato da peça de 1601 fazia, pelo menos para ele, mais sentido. Nesses versos, Rosencrantz diz a Hamlet que "a Dinamarca é muito limitada para a minha mente", ao que Hamlet responde que "poderia viver recluso numa casca de noz e se considerar rei do espaço infinito".


Naquele final de noite, ele foi até a varanda de seu apartamento em São Paulo, acendeu um cigarro e contemplou o pertubador silêncio da cidade estranhamente quieta. Ele sinceramente nunca havia pensado entre ganhar o mundo ou viver recluso numa casca de noz e se considerar o rei do espaço infinito... de fato, houve seu mestre durante a escola de cinema, que talvez - numa dimensão que ele ainda não sabia precisar - tenha influenciado determinantemente o resto de sua vida, num desapego cruel às coisas e às idéias, numa beira do niilismo e na certeza de que damos à vida o sentido que melhor nos aprouver, na falta de um sentido intrínseco.

Ele podia aspirar às telas do mundo inteiro, com seus filmes carregados de personalidade e de histórias não tão doces quanto ele gostaria, menos por incompetência do que por desilusão - justamente a arte da ilusão sendo moldada pela desilusão. Podia também aspirar a tudo o mais que a vida pudesse proporcionar a pessoas como ele, saudáveis, se possível jovens, razoavelmente bem-nascidas e ilustradas e escoladas num jogo-de-cintura existencial típico do terceiro mundo.

Podia, também, contentar-se com a sobrevivência no mundo no qual nascera, com garantias do gênero casamento, emprego e nação. Se isso não bastasse num primeiro olhar, afobado como são os primeiros olhares, podia, como um bônus de consolação, dedicar-se a compreender a vida e o ser humano e conquistar o espaço infinito e morrer, de velhice ou cirrose, a que vier primeiro, entre amigos e livros e - com um pouco de sorte - um grande amor.

Queria apenas poder escolher serenamente entre um destino ou outro, sem que a recessão, a inércia, o comodismo ou as desilusões o empurrassem para o segundo.

Ele olhava para o céu perguntando, mas talvez seu D´us não soubesse respondê-lo naquele momento ou, talvez ainda, não quisesse que Seus planos fossem revelados nesse momento. A cidade aos poucos retomava sua estranha sinfonia de barulhos. Então, ele arremessou com um peteleco - como de hábito - o toco do cigarro, e bebeu o resto quase inexistente de whisky no copo. Já estava alvorecendo, e ele precisava ao menos tentar dormir.

Um comentário:

  1. Lovely seu texto, seu blog... achei um tanto nostálgico, ainda mais porque imaginei a cena do homem fumando o cigarro e pensando, pensando...
    Adorei
    Bjs

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